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Camas partidas - "Se você fosse um homem"


Desilusão, DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS,  LGBT

desilusao

 

Mulheres que se casaram inadvertidamente com homossexuais contam à Revista como reagiram à desilusão. Sair do armário pode ser doloroso, mas é o melhor para ambas as partes, dizem especialistas

Por Rafael Campos

O amor surgiu como em um roteiro de cinema. Ao conhecê-lo na faculdade, Amanda* teve certeza que estava diante do homem da sua vida. Após sete anos juntos, veio o pedido de casamento. A vida a dois, mesmo com os problemas comuns, trazia mais felicidade à relação e o sexo continuava constante e prazeroso.

Porém, depois de pôr a aliança, o marido de Amanda mudou. Tornou-se calado e irritadiço, chegava do trabalho e ia direto para a academia e, dela, para o computador. Não conversava mais com a mulher. Quando questionado sobre o que estava acontecendo, a resposta era sempre a mesma: "Nada". Aturdida, Amanda começou a evitar o sexo. Quando a situação parecia insustentável, ele resolveu se abrir: "Eu sou bissexual".

A revelação teve efeito devastador. Dúvidas quanto à sua capacidade de dar prazer, raiva por nunca ter desconfiado da sexualidade dele, análise profunda de toda a história do casal - tudo isso culminou na criação do blog A esposa. Nele, Amanda conta sua experiência e encontra o alento de outros internautas.

"Quando isso acontece, achamos que nosso caso é único. A forma que encontrei de ter ajuda foi conversando com mulheres que passaram ou estão passando pela mesma situação", conta a blogueira à Revista.

O assunto, porém, permanece um tabu. Muitos homens homossexuais e bissexuais ainda se sentem obrigados a manter um relacionamento de fachada para fugir do preconceito. Nesses casos, sair do armário pode ser duplamente doloroso, já que é o casal que precisa superar a mudança. "As pessoas ainda acreditam que sua homossexualidade é algo apenas sexual. Não percebem que ela é uma identidade emergente que, com o tempo, vai obrigá-las a criar para si uma vida gay", explica Joe Kort, terapeuta americano especializado em casais de orientação sexual mista.

Para Kort, enquanto não houver entendimento de que a homossexualidade é algo normal, casos como o de Amanda vão continuar a surgir. "O homem gay ainda sofre demais. A maior garantia de aceitação social que muitos têm ainda é o casamento, que se torna um pacto silencioso: preciso de você para mostrar que sou macho", analisa Walkíria Helena Grant, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Segundo a pesquisadora, gays que se casam nutrem a esperança de, eventualmente, "domar" seu desejo. E nada impede que o amor pela mulher seja genuíno. Fernando*, 30 anos, não tem dúvidas que sua ex-companheira era "uma mulher perfeita". Foi por crer que eles não mereciam viver um relacionamento de fachada que decidiu contar a verdade. "Sempre digo ao atual marido dela o quanto ele é sortudo."

Os dois eram muito jovens quando ela engravidou. O casamento parecia ser, então, a melhor forma de dar suporte ao bebê. "Mantive nossa relação por cinco anos e jamais cometi adultério. Porém sempre pautei minha vida pela verdade e vi que, naquela situação, eu estava mentindo tanto para mim quando para ela. Foi aí que decidi me separar." Fernando nasceu em uma família extremamente católica e isso fez com que acreditasse que sua inclinação homoafetiva pudesse ser reprimida.

"Minha educação não me deixava viver minha sexualidade. Só fui ter minha primeira experiência depois da separação", lembra. Mesmo assim, contar para a ex não foi tarefa fácil. Ele compara o processo à superação de uma morte. "Foi difícil porque exige a desconstrução das expectativas, das imagens que nós fazemos em relação aos nossos parceiros. Você tem que assassinar uma pessoa dentro de você e esperar que ela nasça de novo."

Ele garante que, quando casado, mantinha uma vida sexual ativa. Esse é um dos aspectos que mais causa perplexidade às mulheres que ser relacionaram com homossexuais. Maria*, 32 anos, lembra que o ex-marido sempre estava pronto para o sexo, nunca havia falhado e transava com ela em qualquer situação. "Como desconfiar de um cara desses?", ainda se questiona. Porém, ao descobrir um perfil falso do parceiro no Orkut, ela teve um choque.

Posteriormente, encontrou no computador fotos do marido despido e conversas com outros homens, marcando encontros via MSN. "O momento mais difícil foi tomar a decisão de me separar, mas tinha que ser forte. A dor maior foi ter sido traída por aquele que eu havia escolhido para viver toda uma vida."

A canadense Bonnie Kaye também se valeu da própria experiência para criar o site GaysHusbands.com e escrever livros de aconselhamento. Após uma separação traumática, ela se dedicou a realizar workshops voltados para maridos que querem contar a verdade para suas companheiras.

Kaye aponta alguns passos que toda mulher deve dar ao saber da verdade. O primeiro, válido para qualquer relacionamento em que um dos parceiros tenha traído, é procurar um médico para saber se se está livre de doenças sexualmente transmissíveis. Em seguida, é preciso encontrar apoio, seja de um amigo, de um membro da família ou de um grupo temático.

"Por fim, aceite a realidade. Seu marido não vai mudar, não importa o quanto ele possa dizer que vai. Esses casamentos não têm finais felizes", atesta.

UMA DIFÍCIL DECISÃO

Sair do armário em um contexto de casamento não é fácil. A escritora Bonnie Kaye reconhece que o diálogo com maridos gays não é fácil. Porém, se eles estão realmente dispostos a encarar a própria sexualidade, devem ser corajosos. Ela explica que muitos deles não sentem culpa ao trair suas mulheres com outros homens, por não conseguirem aceitar que seu desejo HOMOSSEXUAL é algo intrínseco à sua personalidade. Kaey cita as três justificativas mais comuns:

1. Não é traição. Eu sou homem - isso é apenas sexo;

2. Eu amo minha mulher.

Não tenho nada de emocional com outro homem;

3. Eu continuo sendo um bom marido. Isso não tem nada a ver com meu casamento.

"O problema é que muitos homens não compreendem que é impossível mudar a própria sexualidade.

Algumas religiões dizem que, com fé e disciplina, eles podem mudar. Porém nenhuma dessas 'curas' é permanente e só traz mais dúvidas." Não raramente, a mulher se sente culpada e entra em uma espiral de autocomiseração.

Para Kaye, poucas mulheres entendem a homossexualidade. Por serem educadas para acreditar que gays só se interessam por outros gays, não conseguem absorver o fato de que aquele homem que a amou, casou-se com ela e com o qual ela fez amor "tornou-se" HOMOSSEXUAL. "Elas começam a pensar que falharam como mulheres. No entanto, as pessoas nascem gays. Eles podem usar argumentos como 'Se você fosse mais magra' ou 'Se você cuidasse melhor da casa'. Mas o que eles pensam mesmo é 'Se você fosse um homem'."

 

CORREIO BRAZILIENSE - DF | REVISTA DO CORREIO

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Nota do Editor de Soropositivo.Org

Se eles ao menos conversassem e fossem mais liberais...


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