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AIDS: Respostas simples

DIÁRIO DA FRANCA |

AIDS | DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS

25/07/2010

 

Sobre a AIDS, criou-se uma máxima, repetida como um ditado dos tempos de vovó criancinha: jamais na história da medicina se soube tanto sobre uma doença em tão pouco tempo. Não se trata de uma frase de efeito, de uma paráfrase das falas do presidente Lula, mas de uma verdade incontestável. Talvez por seu estigma, mas principalmente por ser uma doença sexualmente transmissível - e uma doença que abalou as supostas conquistas da revolução dos costumes -, a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida mobilizou cientistas, laboratórios, "usuários" e pôs o poder público para se coçar, em todas as instâncias. Para conter o medo, foi preciso gerar conhecimento a jato e mobilizar a quem interessar possa.

A respeito do surto de crack, pode-se dizer algo semelhante. Aprendeu-se muito na década em que as sobras de cocaína viraram pedras explosivas e alucinantes, modificando de uma vez por todas as práticas de consumo de drogas. Jamais se tinha visto algo igual desde a contracultura. É improvável que na década de 1970 houvesse tanto conhecimento acumulado sobre a LSD ou sobre o haxixe - a não ser que se esteja falando do círculo psicodélico do mago intelectual Thimoty Leary ou dos bastidores da filmagem de O expresso da meia-noite, de Alan Parker.

A questão a discutir é por que o farto saber sobre produção, tráfico, efeitos e sequelas da droga mais impertinente de todos os tempos não está se convertendo em sua coação, a exemplo do que aconteceu com a AIDS, hoje controlada e vista como uma doença crônica passível de amplas campanhas de conscientização. As respostas parecem simples demais para serem levadas a sério. Ainda assim, continuam sendo dadas, com solene cara de pau.

A primeira, e mais evidente, é a de que o crack tem preferência entre os mais pobres, daí suscitar menos reação de certos setores da sociedade. Desse ponto de vista, haveria uma farta fatia da população que ainda toma o crack por um solvente qualquer, inalado nas praças por meninos e meninas em situação de risco social.

Mas essa primeira impressão já caiu por terra. Tome-se nota: outra falácia diz que o crack é barato. Ora, dada a volúpia com que é consumido, acaba por ser mais caro do que as outras - logo não se restringe aos portadores honorários de tostões furados. Entre as estatísticas mais assombrosas sobre essa droga estão as que a mostram como preferência nacional de garotas e garotos nascidos em berço esplêndido.

Há quem diga ser um problema de mercado - a boa maconha e a cocaína de qualidade estariam em falta, empurrando os jovens e adultos em crise de abstinência a se entregar aos prazeres da pedra bruta. Improvável - basta acompanhar pelo noticiário os êxitos no tráfico da erva hippie e do pozinho high society.

No frigir dos ovos, o que se pode dizer é que um grande volume de conhecimento sobre um assunto não é garantia de que possa se controlado. Vale para AIDS, não vale para o crack e boa-noite a todos. Mas melhor ir devagar. A maioria do que se aprendeu sobre o HIV tem endosso científico. Só falta a vacina. Quanto ao crack, não há indícios de que se possa tomar uma injeção para desgostá-lo. Nem de que haja algum teorema definitivo sobre esse entorpecente. Ele insiste em não deixar certezas, o que aumenta sua capacidade de provocar estragos, mesmo quando o julgamos controlado pelos saberes.

Essas conclusões indicam uma verdade inconveniente: a fragilidade teórica e estatística sobre o crack nasce de uma falha no processo do conhecimento. Um vírus é estudado em laboratório e no acompanhamento e observação dos infectados. Os efeitos do crack até podem ter sua fase ambulatorial, mas para conter o uso é necessário uma soma de informações que extrapolam os cânones da ciência. Aí é que são elas.

Está dada a palavra de ordem: os conhecimentos todos sobre o crack, fascinantes na sua proposição, não podem avançar numa sociedade que transformou a informação sobre a criminalidade numa capitania hereditária, num feudo da polícia, sobre a qual não se pode inferir, sob pena de ser atropelado. Sem essa troca, fica impossível organizar a escola, a saúde, a família, a imprensa para dominar a epidemia à unha. É questão de urgência. Todos sabemos.

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VIII - "ninguém será privado de direitos";
XIV - "é assegurado a todos o acesso à informação".

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Cristiane Rozick. Jurista Brilhante e ativista pelas causas em que se luta pela vida em igualdade de condições para todos


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