Os investigadores, do Royal Free Hospital de Londres, referem: “os sintomas físicos e psicológicos eram comuns e encontravam-se entre os mais fortes factores preditivos de recidiva virológica”.
A investigação sobre os factores associados com a eficácia virológica do tratamento ARV tem-se centrado de forma predominante nos factores relacionados com o tratamento, como a potência dos fármacos ou os níveis de adesão dos doentes, tendo sido prestada pouca atenção à contribuição das percepções do doente relacionadas com a sua saúde e os resultados dos tratamentos.
E isto apesar do facto de uma grande quantidade de doentes a tomar fármacos ARVs referir sintomas indicativos de alterações físicas ou psicológicas.
Foi, assim, neste contexto que estes investigadores foram estudar a informação obtida em questionários de auto-preenchimento, de forma a tentar perceber se a presença, o número ou a gravidade dos sintomas físicos e psicológicos assinalados, de alguma forma constituíam factores preditivos de aumentos da carga viral entre os doentes com carga viral (CV) indetectável, a fazer tratamento.
A investigação incluiu 188 pessoas. Todas, sem excepção, apresentavam uma CV indetectável e encontravam-se a fazer tratamento à data da realização do questionário, em 2005, questionário esse que incluía perguntas sobre a presença e gravidade de sintomas de 6 áreas diferentes:
**alterações físicas
**alterações psicológicas
**alterações gerais
**número total de sintomas
**ansiedade/depressão
**pensamentos suicidas
Os sintomas eram classificados de acordo com o grau de perturbação que causavam, de 0.8 (“nenhuma perturbação”) até 4.0 (“grande alteração”).
O número médio de sintomas referido pelas pessoas foi de onze.
Quarenta e oito por cento dos doentes, porém, referiu depressão e 27% referiu ter pensado em suicídio na semana anterior, tendo 4% referido que esses pensamentos eram constantes.
Os investigadores notaram que os doentes que referiram sintomas físicos tinham também uma probabilidade importante de referir sintomas psicológicos. Aproximadamente 60% das pessoas que referiram que os sintomas físicos “de algum modo” causavam perturbação, também referiram que tinham “frequentemente” sintomas psicológicos, tendo 64% destes últimos referido depressão.
Durante uma média de 2.2 anos de follow-up (ou seja, de acompanhamento), a carga viral recidivou acima das 200 cópias/ml em 22 pessoas, tendo 46 outros doentes experimentado um blip (um blip é um episódio transitório em que a carga viral se torna detectável) de carga viral acima das 50 cópias/ml.
Os doentes que referiram perturbações associadas a sintomas apresentavam uma probabilidade 5 vezes maior de experimentar uma recidiva da carga viral do que os que apresentavam pontuações relacionadas com os sintomas mais baixas.
Os investigadores foram depois analisar a possível influência nestes resultados de eventuais factores confundentes, incluindo, por exemplo, a adesão ao tratamento, análise essa que mostrou que os sintomas que causavam perturbação física (p = 0.022), o número total de sintomas (p = 0.19), a ansiedade/depressão (p = 0.043) e os pensamentos suicidas (p = 0.028) permaneciam associados de forma significativa com a recidiva da carga viral acima das 50 cópias/ml.
O número total de sintomas (p = 0.042) e ansiedade e depressão (p = 0.011) mostraram-se ambos associados com uma recidiva da carga viral acima das 200 cópias/ml.
“Neste estudo, a pontuação relativa aos sintomas físicos constituiu um factor preditivo da recidiva viral, mostrando uma correlação elevada com os parâmetros psicológicos, sugerindo que os sintomas físicos podem resultar em depressão ou ansiedade ou constituir manifestações de sofrimento psicológico”, escrevem os investigadores.
Os investigadores sugerem também que a presença de sintomas pode ser preditiva de uma futura adesão insuficiente. Contudo, também referem que “ansiedade e depressão têm sido associadas à imunidade celular nas pessoas infectadas pelo VIH”.
Averiguar junto dos doentes sobre a presença de sintomas “pode ser útil na identificação de pessoas em risco de falência terapêutica futura, fornecendo também uma oportunidade não apenas de avaliar a adesão, mas também de implementar as intervenções médicas e psicológicas adequadas às alterações físicas e psicológicas referidas”, concluem os investigadores.
