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Ambulatório abre portas a travestis e transexuais

Governo de São Paulo amplia atendimento na rede pública

 

Delma Medeiros

 

DA AGÊNCIA ANHANGUERA

 

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Desejo presente em praticamente todos os transexuais, a cirurgia para mudança de sexo, ou de redesignação sexual, está mais perto de deixar de ser um sonho impossível para quem não dispõe dos cerca de R$ 20 mil cobrados em média pelo procedimento na rede privada de saúde. A criação pelo governo do Estado do Ambulatório de Atenção Integral à Saúde de Travestis e Transexuais abre uma brecha na parede, até então quase intransponível, para se conseguir a cirurgia pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O primeiro ambulatório dedicado exclusivamente a travestis e transexuais entrou em funcionamento em julho de 2009 e já faz cirurgias para remoção de silicone industrial (líquido), em parceria com o Hospital Diadema, e tratamento com hormoniterapia. O próximo passo é ampliar a oferta de cirurgias de redesignação sexual.

 

Uma parceria com o Hospital de Clínicas da Universidade São Paulo (USP) vai permitir ampliar em quatro vezes o número de cirurgias de transgenitalização. Atualmente, o HC da USP faz em média três cirurgias por ano. "A expectativa é que a partir deste ano, passe a fazer uma cirurgia por mês", diz a coordenadora do Centro de Referência e Treinamento (CRT) de DST/AIDS da Secretaria de Estado da Saúde, Maria Clara Gianna. "É preciso ampliar a oferta de cirurgias de redesignação sexual. A oferta hoje está muito abaixo da demanda", avalia Maria Clara, adiantando que o programa está em negociação com um segundo serviço para ampliar a oferta do procedimento. "Ainda não posso divulgar o novo serviço, mas esperamos anunciar a nova parceria em breve."

 

Nos 20 anos em que atua neste programa, o HC da USP realizou 37 cirurgias. Se a proposta de um procedimento mensal se concretizar, este número poderá ser alcançado em três anos.

 

"É uma luzinha fraca, mas tenho esperança de fazer minha cirurgia pelo SUS", afirmou Isabela Venturini, de 27 anos, que sonha com a readequação sexual. Ela já fez acompanhamento psicológico por dois anos e há um ano tem em mãos o laudo psicológico que comprova sua aptidão para se submeter ao procedimento. Mas ainda não fez a cirurgia por falta de condições financeiras. Numa avaliação prévia com um cirurgião plástico de Jundiaí, especializado em transgenitalização, o custo da cirurgia seria R$ 17 mil. "E isso depois de muita negociação", diz Isabela, citando que conhece transexuais que fizeram a cirurgia, "mas todas pela rede privada". Isabela destaca que enquanto não realiza seu sonho, tenta tocar a vida da melhor forma possível. "Chega um momento em que você precisa mudar o foco, senão enlouquece", lamenta.

 

O objetivo da criação do ambulatório, segundo Maria Clara, foi estruturar um serviço especializado e ao mesmo tempo mobilizar os municípios a criar serviços voltados a esse público. "O atendimento tem que começar na rede básica, que por sua vez encaminha os casos que necessitarem ao centro de referência." Maria Clara cita ainda que a hormoniterapia pode ser uma opção mais saudável que a aplicação de silicone líquido, produto que injetado de forma inadequada pode deixar sequelas e até levar à morte.

 

CONVITE

 

Para marcar o Dia da Visibilidade das Travestis, comemorado em 29 de janeiro, o CRT-DST/AIDS promove um evento onde apresentará o balanço dos atendimentos do ambulatório e as conquistas obtidas desde o início do funcionamento do serviço. Será no dia 28, quinta-feira que vem, às 15h, no anfiteatro do CRT, na Rua Santa Cruz, 81, Vila Mariana, em São Paulo. O evento é aberto a todos.

 

"Tenho medo de procurar o centro de saúde"

 

Para Janaína Lima, TRAVESTI e integrante do Grupo Identidade, que atua com o movimento de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBT), as deficiências na saúde pública atingem a população em geral. "Quando se trata de especificidades, a situação só se agrava." No entanto, ela vê com alguma reserva a criação de um ambulatório de referência. "Tenho medo de procurar o centro de saúde próximo de minha casa com uma dor de cabeça, por exemplo, e não ser atendida porque tem um serviço exclusivo para travestis e transexuais, que é do outro lado da cidade. É preciso cuidado para o ambulatório de referência não se tornar mais um fator de discriminação", pondera.

 

Janaína lembra que o atendimento específico é precário. O processo de seleção do HC da USP, um dos únicos a fazer cirurgia de redesignação sexual, é muito restritivo. "Eles desenham um modelo de feminilidade que não existe na sociedade. É preciso uma nova discussão a respeito da patologia da transexualidade. Hoje, obter o laudo é extremamente complicado, exceto se você puder pagar", lamenta. Outra bandeira do movimento LGBT é acabar com a distinção médica entre travestis e transexuais que determina, por exemplo, que só pode colocar implante de silicone nos seios a pessoa que passa por cirurgia de transgenitalização. "Para driblar essa carência, as meninas estão tomando hormônio por conta própria, e fazendo qualquer programa para ganhar o suficiente para pagar o implante. Isso aumenta a vulnerabilidade", afirma Rodrigo Rosa, do Grupo Identidade.

 

Em Campinas, o primeiro passo para aprimorar o atendimento de saúde para a comunidade LGBT é a sensibilização dos profissionais da rede básica. Numa parceria com o Grupo Identidade, a pasta está atuando no sentido de preparar os profissionais de forma a suprir a integralidade da atenção. Um dos primeiros pontos é garantir ao paciente ser tratado pelo nome que escolheu, independentemente do que consta no registro civil.

 

A coordenadora de Saúde do Adulto, Jane Emídio Dias, informa que o Centro de Referência GLTTB (a sigla se mantém inalterada) procurou a pasta pedindo a criação de um ambulatório específico.

 

O processo começou com duas unidades por distrito, mas será disseminado por toda a rede. Jane cita que casos específicos, como de retirada de silicone líquido, são encaminhados para o Complexo Ouro Verde. Sobre hormonioterapia, os protocolos estão em discussão, e ainda não há nada definido. (DM/AAN)

 

"Antes, não vivia, só me escondia"

 

Para a funcionária pública Juliana (nome fictício), de 30 anos, a cirurgia de redesignação sexual, feita há cerca de dez anos, foi um renascimento. "Passei a ter uma vida. Antes, não vivia, só me escondia, me sentia uma aberração. Imagine uma mulher com um pênis, é terrível." Juliana afirma que se sentia tão inadequada que não se relacionava com as pessoas, nem se tocava. "Entrei em depressão profunda e cheguei a cortar os pulsos." Diante do quadro, seus pais decidiram apoiá-la e pagaram a cirurgia de transgenitalização. "Aí mudou tudo. Mudei minha documentação, tirei nova certidão de nascimento, constando sexo feminino, tive um casamento de anos. Hoje sou uma mulher feliz, independente, que conquistou seu espaço", conclui. (DM/AAN)

 

Serviço oferece assistência integral

 

Demanda mais recorrente é a hormoniterapia, responsável por 45% dos casos

 

O ambulatório paulista voltado ao atendimento exclusivo de travestis e transexuais começou a funcionar em julho de 2009, e tem a finalidade de lidar com as dificuldades e demandas específicas desses grupos sociais. Com capacidade para 300 atendimentos mensais, oferece assistência integral a travestis e transexuais, com atendimento especializado em urologia, proctologia e endocrinologia (terapia hormonal), avaliação e encaminhamento para implante de próteses de silicone e cirurgia para redesignação sexual.

 

Levantamento dos primeiros seis meses de funcionamendo mostra que a demanda mais recorrente é a hormoniterapia (terapia hormonal), responsável por 45% dos casos. Em seguida, vem a procura por cirurgia de transgenitalização (37%) e remoção de silicone industrial (14%). "O centro tornou-se uma referência para a saúde pública. Elabora protocolos clínicos, desenvolve e avalia tecnologias e modelos assistenciais e promove integração de movimentos sociais", diz a coordenadora do CRT-DST/AIDS, Maria Clara Gianna.

 

 

"O serviço é o primeiro com essas características e especialidades. Trata-se de uma conquista para as travestis e transexuais", afirma a diretora do ambulatório, Maria Filomena Fernichiaro. Ela cita que hoje a espera por uma cirurgia de redesignação sexual demora de 5 a 8 anos. "Nossa meta é reduzir essa espera para 2 anos, que é o tempo para o acompanhamento psicoterapêutico", conclui.

 

Outra vitória é a resolução, já aprovada pelo Conselho Regional e Medicina (CRM) e em vias de publicação, que estende para as travestis o tratamento por hormoniterapia, até então restrito as transexuais. "Estamos finalizando o protocolo e adquirindo os medicamentos, que serão distribuídos gratuitamente", diz Filomena. O ambulatório, vinculado ao Programa Estadual de DST/AIDS, funciona de segunda a sexta, das 14h às 20h, na Rua Santa Cruz, 81, na Vila Mariana, em São Paulo. (DM/AAN)

 

CORREIO POPULAR – RS 

Editoria:

Pág.

Dia / Mês/Ano:

BRASIL

 

25/JANEIRO/10

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