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Dor de cabeça, náuseas e mal estar no estômago. Os sintomas de ressaca foram tão fortes que o adolescente D., de 17 anos, achou que ia parar no hospital depois da bebedeira com os três amigos em Caldas Novas. "Nós vomitamos em cima da cama enquanto dormíamos", conta com vergonha, garantindo que foi a última vez.

Os quatro adolescentes resolveram viajar e beber para comemorar o fim do Ensino Médio. "Com o álcool, a gente se diverte mais, fica mais alegre e corajoso, até para chegar nas mulheres", diz. D. experimentou bebida pela primeira vez aos 14 anos, em um aniversário de família. "Vejo meus pais bebendo desde que me entendo por gente. Eles tomam todo fim de semana", enfatiza o rapaz, que confessa detestar quando os pais estão embriagados.
D. conta que normalmente bebe quando vai para festas com os amigos. "A maioria é adolescente, mas sempre conseguimos comprar bebida em distribuidoras, ambulantes, supermercados". Segundo ele, as prediletas são as destiladas e muitos bebem para serem aceitos no grupo. "Bebida é moda, assim como o cigarro já foi". A amiga Cyntia, também de 17 anos, conta que conhece amigos que não gostam de beber, mas acabam indo "na onda" dos outros. Além disso, a adolescente enfatiza que muitas meninas bebem a mesma quantidade que os garotos. "Tem algumas que bebem até mais".
Dados do I Levantamento Nacional sobre Padrões de Consumo de Álcool na População Brasilera, da Secretaria Nacional Anti-drogas, apontam que jovens de 14 a 17 anos começam a beber, em média, com 13 anos e nove meses. Cerca de 13% apresenta um padrão intenso de consumo de álcool. Na região centro-oeste, 63,9% dos garotos e 45,5% das garotas entre 12 e 17 anos fazem uso do álcool, sendo que 8,4% deles e 6,9% delas apresentam sintomas de dependência da substância.
COMEÇA EM CASA
A psicóloga Nádia Paranhos explica que a bebida hoje está associada ao prazer. "É como se fizesse parte do ritual de diversão". Segundo ela, por ser uma droga lícita, a prática social de fornecer bebida para adolescentes é aceita nos dias de hoje. "A sociedade como um todo pode fiscalizar, mas não o faz porque já é aceito e porque ainda não enxerga os prejuízos da situação, que é um problema de saúde pública".
De acordo com a psicóloga, a adolescência é uma fase difícil, onde o indivíduo começa a lidar com cobranças e expectativas, além da impaciência em conseguir trabalho e autonomia. "Alguns começam a consumir álcool para se sentir parte da vida adulta ou para minimizar a sensação de impotência e de frustrações características da fase". Além disso, Nádia enfatiza que o adolescente se espelha no grupo em uma busca por identidade e por uma posição nesse mundo. "Mas busca de forma errada, se ele quer autonomia, precisa de emprego. Com o álcool e as drogas, a primeira coisa que faz é abandonar a escola". Segundo ela, o adolescente acaba se isolando da família e de ambientes educativos e se aproxima de grupos onde são aceitos, mesmo que seja no mundo das drogas e do crime.
O psiquiatra e pesquisador da Universidade de Brasília, Raphael Boechat, afirma que o álcool é uma das drogas que mais se mantém, inclusive na vida adulta. "O problema maior do álcool é desinibir para condutas autodestrutivas, como brigas, relação sexual sem CAMISINHA e direção irresponsável".
Além disso, o psiquiatra explica que o uso contínuo e em grandes quantidades pode desencadear quadros psicóticos, como distúrbios de ansiedade, depressão, déficit de atenção, perda de memória, irritabilidade e ansiedade. "O uso abusivo traz transtornos para o organismo inteiro e pode levar à demência irreversível", esclarece.
SE LIGA!
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 2 bilhões de pessoas consomem bebidas alcoólicas. Seu uso indevido é responsável por 3,2% das mortes e por 4% de todos os anos perdidos de vida útil.
No Brasil, cerca de 33 milhões de brasileiros já extrapolaram ao beber álcool, o que representa 28% da população. A média de adolescentes que já beberam em "binge" (de forma abusiva, com cinco doses para homem e quatro para mulheres) chega a 16%.
A bebida alcoólica é a substância psicoativa mais consumida no Brasil, sendo que 61% prefere a cerveja ou chope. Já o vinho está com 25%, os destilados com 12% e as bebidas "ice" com 2%. Os jovens entre 18 e 24 anos são os que mais bebem, sendo que metade dos brasileiros de classe E consome cinco ou mais doses por situação habitual.
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