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A saúde dos brasileiros piorou

ÉPOCA

DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS

21/06/2010

 

Uma pesquisa em 27 capitais revela um quadro de obesidade, sedentarismo, má alimentação e abuso de álcool. Você está nessa estatística?

Cristiane Segatto e Marcela Buscato

Revista Época

Nos últimos quatro anos, a renda média do brasileiro cresceu, mas o dinheiro extra não trouxe mais saúde. O Brasil está mais gordo e sedentário. Abusa mais de álcool. Come menos feijão, frutas e hortaliças. Está mais sujeito à hipertensão e ao diabetes. Esse é o retrato de uma pesquisa anual feita pelo Ministério da Saúde desde 2006, com 54 mil moradores de todas as capitais. Nas próximas páginas, ÉPOCA publica com exclusividade os resultados colhidos em 2009.

O levantamento Vigitel capta o estilo de vida da população por meio de extensas entrevistas feitas por telefone. Não traduz o que acontece em todos os cantos do país, mas dá uma boa ideia do comportamento de quem vive nas capitais e tem renda suficiente para ter em casa uma linha telefônica fixa. O trabalho é baseado na metodologia adotada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos. É uma das mais importantes ferramentas dos governos para monitorar fatores de risco de doenças crônicas e orientar os gastos com medicamentos. O Vigitel ajuda a prever as bombas que vão estourar nos hospitais nos próximos anos, consumindo vidas e comprometendo o orçamento do sistema de saúde. Pelo que a pesquisa vem mostrando nos últimos anos, o Estado brasileiro pode se preparar para o pior. Em várias áreas.

"Os dados mais alarmantes são os índices de sobrepeso e obesidade", diz Deborah Carvalho Malta, coordenadora de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis do Ministério da Saúde. Entre os entrevistados do sexo masculino, 51% têm excesso de peso (em 2006, eram 47%). Nas mulheres, o índice é de 42% (em 2006, era de 38%). O Brasil está caminhando rapidamente para a situação de países como os Estados Unidos, onde 60% da população tem sobrepeso. "Não acredito que vamos derrubar esses índices. Se conseguirmos estabilizá-los, já será uma vitória", diz Deborah. Entre as mulheres, ficou claro que o excesso de peso é mais comum entre as mais pobres. No estrato de menor escolaridade (zero a oito anos de estudo), 50% das mulheres têm sobrepeso. Na faixa mais culta (12 anos de estudo ou mais), o índice é de 31%. No sexo masculino, a situação é diferente: a barriga independe da escolaridade.

Nas últimas três décadas, o Brasil viveu uma complicada transição nutricional. Saiu da desnutrição para o sobrepeso (um pouco acima do normal) e a obesidade (bastante acima do normal). Quando uma criança sofre de desnutrição ainda no útero da mãe ou nos primeiros anos de vida, é bastante provável que se torne obesa no futuro - pois seu organismo se programou para viver com pouco. Quando essa pessoa tem mais alimento à disposição, ele vira excesso.

Além disso, o aumento do peso da população também pode ser explicado pela expansão do acesso a alimentos baratos, engordativos e de baixo valor nutricional, como biscoitos, salgadinhos e fast-food. Com R$ 2 é possível comprar legumes e fazer uma boa sopa ou salada - desde que a pessoa tenha interesse e tempo para cozinhar. Um bom termômetro do tempo que as pessoas passam cozinhando em casa é o consumo regular de feijão. Como o preparo é trabalhoso, baixo consumo de feijão é um indicador de maior consumo de fast-food. O brasileiro está comendo menos feijão (o consumo caiu de 71% em ambos os sexos em 2006 para 65% em 2009), um alimento rico em proteínas vegetais, ferro e outros nutrientes.

Entre as doenças provocadas pelos maus hábitos alimentares ou pela falta de exercícios, duas merecem especial atenção: hipertensão e diabetes. Entre os entrevistados, 24% disseram ter recebido diagnóstico de hipertensão (em 2006, eram 21%). O diabetes foi mencionado por 5,8% dos entrevistados (em 2006, eram 5,2%). Mas é difícil saber se essas doenças estão realmente se tornando mais frequentes ou se a população está tendo mais acesso ao diagnóstico.

Para a maioria dos brasileiros, a saúde deveria ser

a prioridade número um do próximo presidente

Assustadora também é a porcentagem de pessoas que abusam de álcool. O governo considera abuso o consumo de mais de cinco doses num único dia em homens e quatro doses em mulheres. No sexo masculino, o consumo de álcool cresceu de 25,5% em 2006 para 28,8% em 2009. É bem mais do que os homens argentinos consomem (14,6%). "A nossa cultura é muito permissiva em relação ao álcool. Ele está sempre associado à celebração e ao lazer. Precisamos educar os brasileiros para mudar essa cultura", diz Deborah Malta.

Os brasileiros cuidam mal do próprio corpo, mas acham que a atenção do país à saúde precisa melhorar. Essa contradição foi captada pela pesquisa encomendada pelo Movimento Todos Pela Educação ao Instituto Ibope, divulgada há 15 dias. Para 63% dos entrevistados, a prioridade número um do governo deveria ser a saúde. As pessoas têm direito de reclamar do mau atendimento, mas talvez fossem mais úteis a si mesmas se, ao mesmo tempo, evitassem comportamentos que ajudam a adoecer. Nesse quesito, a pesquisa do Ministério da Saúde mostra que o povo brasileiro não está fazendo sua parte. O país cultiva maus hábitos. Viver os prazeres imediatos sem pensar nas consequências é um traço absolutamente humano - em especial, na juventude. E o Brasil ainda é um país jovem. Como convencer quem tem 30 anos e se sente invulnerável que terá de pagar no futuro o preço das escolhas erradas que faz hoje? "Para os jovens, é muito difícil se imaginar com uma doença que eles acham que é de velho, como hipertensão ou diabetes", afirma o médico Nabil Ghorayeb, do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo. Segundo ele, não é por falta de conhecimento que os jovens abusam na juventude. "Eles acham que vão ficar doentes só daqui a 30 anos e que até lá a medicina terá inventado uma solução", diz. A solução não vem, e o jovem se transforma num velho que sofre e dá prejuízos à família e ao Estado.

O técnico de informática Daniel da Silva Freitas, de 30 anos, é o típico bom de garfo. Diz que come frutas, verduras e salada, mas não resiste a uma gordurosa e suculenta costela. Seu maior problema, porém, é o fast-food. Freitas come na praça de alimentação do shopping sete vezes por semana e sua dieta usual inclui hambúrgueres. Tem 1,73 metro e está pesando 103 quilos. "Eu era magro até uns 23 anos e sempre comi de tudo. Depois, comecei a engordar", diz. Ele já tentou emagrecer na bicicleta e na esteira, mas desistiu da academia em menos de três meses. "Sei dos riscos de ser sedentário e comer mal. Eles passam pela minha cabeça, mas eu os espanto rápido", diz. "A gente nunca acha que vai acontecer com a gente."

Quando se trata da saúde, todos somos vítimas de nossas escolhas e da programação metabólica da infância, que produz repercussões ao longo da vida. "Em geral, crianças que praticam pouca ou nenhuma atividade física se tornam adultos com massa muscular atrofiada", diz a cardiologista Jaqueline Scholz Issa, do Instituto do Coração (InCor), em São Paulo. "Isso altera o metabolismo para a vida toda. É o que acontece com aquelas pessoas que engordam com facilidade mesmo sem comer muito."

Como boa parte das doenças decorre dos hábitos, não existe receita mágica que as elimine. Freitas terá de viver no futuro com o resultado de suas escolhas diárias ao longo dos anos, como todos nós. A seguir, algumas medidas que podem fazer a diferença.

> COMA MAIS FRUTAS E VERDURAS

Uma dieta equilibrada faz mais do que prevenir o acúmulo de gordura em nossas artérias que leva à hipertensão, ao infarto e a acidentes vasculares. Comer frutas e verduras fornece micronutrientes, como vitaminas e minerais, necessários para o funcionamento de nosso organismo.

> EVITE ALIMENTOS COM ALTO TEOR DE GORDURA

Além de provocar doenças cardiovasculares, hepáticas e renais, a gordura está associada ao declínio do raciocínio e da memória. Na Dinamarca, os pesquisadores constataram que pessoas que comiam no mínimo 100 gramas de frutas, verduras, grãos e cogumelos por dia tinham um desempenho melhor em testes do que os voluntários que não consumiam alimentos naturais.

> MEXA-SE

Praticar pelo menos 30 minutos de atividade física na maior parte dos dias aumenta a qualidade e a expectativa de vida. Melhora o sistema imune e reduz o estresse. Além disso, previne as cardiopatias, a obesidade, a hipertensão e a osteoporose.

> SALVE SEU FILHO

A pesquisadora Raylene Reimer, da Universidade de Calgary, no Canadá, conseguiu estabelecer relação direta entre alimentação na infância e qualidade de vida na idade adulta em uma experiência com ratos em laboratório. A alimentação altamente proteica na infância aumenta a possibilidade de obesidade no futuro. A pesquisadora afirma que a dieta da primeira infância pode ter um impacto duradouro na ativação de genes que controlam o metabolismo.

Vida saudável também é uma questão de educação. O empresário Fernando Nabuco começou a fazer atividade física quando era criança. Foi incentivado pelo pai, o remador Fernando Nabuco de Abreu, que representou o Brasil nas Olimpíadas de 1932. Nabuco, o filho, nunca mais parou. Chegou aos 66 anos com saúde e aparência invejáveis. Quando conversou com a reportagem de ÉPOCA, ele se preparava para pedalar 100 quilômetros pelo interior de São Paulo no fim de semana. "Os meninos de 20 anos não conseguem me acompanhar", diz Nabuco. A dica de Nabuco para quem quer se manter em forma ao longo da vida é adequar a atividade física à carreira e às limitações impostas pela idade. O importante é não parar. Na década de 1980, quando era da presidência da Bolsa de Valores de São Paulo, Nabuco participou três vezes do Ironman, no Havaí, uma das provas mais duras do esporte. Ele acordava às 4h30 da manhã para treinar, nadava na hora do almoço e, no fim do dia, ainda corria. A maioria não pode imitar esse estilo de vida, mas pode repetir os cuidados que Nabuco tem com a alimentação. Ele só come carne vermelha uma vez a cada 15 dias. E evita a gordura para poder se deliciar com algumas frituras. "Adoro batata frita", diz. Bebidas alcoólicas, por exemplo, são permitidas apenas uma vez por semana.

Marisa Cauduro

AOS 66 ANOS

Nabuco e a bicicleta com a qual percorre 100 quilômetros num único dia. Ele aprendeu a ser saudável na infância. "Não sei se vou viver mais. Mas vivo melhor"

Nabuco escolheu fazer o que está a seu alcance para viver mais e melhor. Enquanto essa atitude não for generalizada, os brasileiros continuarão sabotando a própria saúde - e essa atitude terá impacto sobre o sistema de saúde.Um estudo do Banco Mundial estima que, mantido o cenário atual, na próxima década o Brasil gastará US$ 34 bilhões só para remediar os problemas causados por hábitos inadequados, sem nenhum ganho em qualidade de vida.

Se a população não está fazendo sua parte, como está se saindo o governo? Falta investimento ou falta gestão na saúde brasileira? "Faltam as duas coisas", diz o economista sênior André Medici, do Banco Mundial, em Washington, responsável por fazer as análises do setor de saúde na América Latina. Ele explica que o investimento brasileiro em saúde (a soma dos gastos públicos e privados) é de cerca de 8% do PIB. É pouco (leia a comparação com outros países no quadro abaixo) para dar conta dos desafios que o país enfrenta. Logo, é preciso investir mais. Mas, antes de tudo, é preciso investir melhor. "O gasto brasileiro por habitante é semelhante ao do Chile, mas a mortalidade infantil no Brasil é quase o dobro da chilena", diz Medici. "Ou seja: o dinheiro que o Brasil tem hoje para gastar em saúde poderia ser mais bem utilizado."

A saúde brasileira enfrenta três grandes problemas. O primeiro é conviver com doenças superadas pelos países ricos nos anos 60, como diarreia, tuberculose e hanseníase. O segundo é termos recursos comparáveis aos que as nações desenvolvidas gastavam nos anos 80, cerca de 8% do PIB. Mas a inflação na área da medicina aumentou tanto que hoje a França gasta 11% e os Estados Unidos 15%. O terceiro problema é a demanda pela medicina do século XXI, cujas drogas, tratamentos e exames sofisticados custam mais que o sistema de saúde brasileiro é capaz de pagar. Se o país continuar investindo 8% do PIB em saúde, isso será suficiente apenas para manter o padrão de atendimento à saúde de que dispomos hoje. Para melhorar a qualidade dos serviços e bancar novas tecnologias e drogas mais caras, será necessário gastar mais.

"Em 2020, é provável que o Brasil esteja investindo 11% do PIB em saúde, mas precisa começar a trabalhar hoje para reduzir o desperdício de recursos", diz o professor Marcos Bosi Ferraz, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Do contrário, mesmo que aumente o investimento, o país vai jogar dinheiro no ralo." A pressão social por melhores serviços e a tentação de consumo de novas drogas e tecnologias só vão aumentar. E o envelhecimento dos brasileiros vai complicar ainda mais a situação. Os idosos com mais de 70 anos serão 17% da população em 2050. Hoje não chegam a 5%.

A Constituição de 1988 criou o Sistema Único de Saúde (SUS), uma importante conquista da democracia brasileira. O Artigo nº 196, segundo o qual "a saúde é direito de todos e dever do Estado", é um belo instrumento de inclusão social. Na prática, porém, nenhum governo conseguiu cumpri-lo integralmente. É por isso que todos os anos milhares de pacientes recorrem a ações judiciais para conseguir tratamentos não oferecidos pelo SUS. O atendimento universal e irrestrito previsto pelo SUS tornou-se uma utopia? "Alguém vai ter de assumir o ônus político de dizer que não é possível oferecer tudo a todos", diz Ferraz. "Essa é uma visão romântica. Nenhum país dá tudo a todos."

Os especialistas dizem que o Brasil precisa definir prioridades claras de saúde em vez de conviver com a ilusão de que o Estado está cuidando de tudo. Os candidatos à Presidência - Dilma Rouseff, José Serra e Marina Silva - ainda não apresentaram propostas para a saúde. "Não creio que haverá diferenças importantes nos programas de saúde dos três candidatos", diz Medici. "Todos eles defendem a continuidade do SUS e a intensificação do Programa de Saúde da Família, por exemplo." Dilma, Serra e Marina já disseram que vão, finalmente, regulamentar a Emenda Constitucional nº 29. Aprovada em 2000, ela determina que os Estados devem destinar à saúde no mínimo 12% de seus orçamentos. No caso dos municípios, o índice é de 15%. Como até hoje a emenda não foi regulamentada, muitos governos deixam de investir o suficiente. Ou computam outros tipos de gasto (como com saneamento básico e coleta de lixo) na conta da saúde.

A Emenda nº 29 é uma das questões que estão na pauta da segunda edição de ÉPOCA Debate 2010, uma série de discussões sobre temas da agenda nacional que deverão ser enfrentados pelo próximo presidente da República. O ÉPOCA Debate Saúde, um evento aberto à participação de leitores, ocorrerá no dia 22 de junho na sede da Editora Globo, em São Paulo. Os convidados são o secretário de Saúde do Estado de São Paulo, Luiz Roberto Barradas Barata, Marcos Bosi Ferraz, coordenador do Centro Paulista de Economia da Saúde da Unifesp, e Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e atual superintendente corporativo do Hospital Sírio-Libanês. Eles vão debater as prioridades que o próximo presidente da República deveria adotar para melhorar a saúde no Brasil. Para lançar o debate, ÉPOCA ouviu as propostas que circulam entre os especialistas em saúde no país. A seguir, um resumo das principais ideias.

> ORGANIZAR E FORTALECER A REDE BÁSICA DE SAÚDE

Cerca de 90% dos problemas de saúde que a população enfrenta podem ser resolvidos na rede básica. São males corriqueiros que podem ser tratados pelo médico de família ou nos postos de saúde. No Brasil, a rede básica é frágil. É por isso que, quando adoece, o brasileiro corre para o hospital. "A rede básica não funciona, e o problema é empurrado para o nível de cima (o dos hospitais), que tem custos muito mais elevados", diz Wladimir Taborda, assessor médico da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. A fragilidade da rede básica fica evidente quando ocorre uma epidemia (como a de dengue no Rio de Janeiro em 2008). Os hospitais não dão conta da demanda extra e o atendimento das doenças mais graves fica prejudicado.

> REDUZIR INIQUIDADES

Cerca de 45 milhões de pessoas têm planos de saúde no Brasil. Em geral, elas usam o plano apenas para consultas e internações de custo baixo ou moderado. Quando precisam de um serviço caro e de alta complexidade (transplantes ou drogas caríssimas contra o câncer), elas recorrem ao SUS. "Os beneficiários dos planos de saúde têm todo o direito de usar o serviço público, mas é preciso deixar claro que, ao fazer isso, eles estão subsidiando os planos de saúde", diz Medici. Como o orçamento público é limitado e os custos da medicina de ponta só crescem, o governo destina cada vez mais dinheiro para atender a classe média que tem plano de saúde. Em 2003, os gastos per capita do SUS no Nordeste (a região mais pobre do país) eram de R$ 168 por ano. No Sudeste (a região mais rica) eram de R$ 250. "A dependência do SUS no Nordeste é pelo menos o dobro da verificada no Sudeste. Quem mais precisa, menos recursos recebe", diz Medici. Para reduzir a injustiça, é preciso garantir melhor distribuição regional dos recursos públicos.

Nos últimos 20 anos, o Brasil teve 17 ministros da Saúde.

Cada um ficou, em média, 15 meses no cargo. É pouco

> CRIAR A CULTURA DA PREVENÇÃO E DA EDUCAÇÃO

Não existe melhor investimento que evitar que as pessoas adoeçam. Por isso é preciso ampliar a cultura da prevenção com programas de educação nas escolas e de campanhas de conscientização dos adultos.

> DEFINIR QUE SISTEMA DE SAÚDE QUEREMOS

Discutir com a sociedade se o SUS é o melhor caminho, a partir da experiência de outros países. No Canadá, as províncias (equivalentes aos Estados brasileiros) oferecem um pacote de serviços básicos a toda a população. A rede particular é proibida de prestar os mesmos serviços que a rede pública.

Em 2050, os idosos acima de 70 anos serão 17% da população. Os custos da saúde vão aumentar

> GARANTIR QUE OS GESTORES DA SAÚDE SEJAM TÉCNICOS

O cargo de ministro da Saúde e outros postos-chave na gestão dos recursos destinados à área devem ser técnicos - e não políticos. Os gestores precisam ter tempo e liberdade para traçar metas de longo prazo. A frequente alternância de ministros no cargo, ao sabor dos acordos políticos, é ruim para o país. Nos últimos 20 anos, o Brasil teve 17 ministros da Saúde.Em duas décadas, a Suíça teve apenas três ministros da Saúde.

Nos últimos 20 anos, o Brasil teve 17 ministros da Saúde.

Cada um ficou, em média, 15 meses no cargo. É pouco

> MELHORAR A GESTÃO

Toda instituição pública de saúde deveria ser obrigada a manter um contrato de gestão com orçamento e metas bem estabelecidos. Um dos caminhos é a ampliação das parcerias público-privadas. Quando era governador de São Paulo, Mário Covas lançou as organizações sociais de saúde (OSS). Nesse modelo, inspirado na Espanha, o Estado delega a uma entidade privada, sem fins lucrativos, o gerenciamento de hospitais públicos e garante recursos mensais para manutenção, exercendo controle rígido sobre a gestão dos gastos e serviços prestados. Hoje, as OSS são consideradas uma experiência de sucesso pela maioria dos especialistas. Mas, quando a ideia foi lançada, o PT e o PDT entraram com uma ação de inconstitucionalidade no STF. Se o Supremo julgar que as OSS são inconstitucionais, calcula-se que o Brasil teria de contratar cerca de 100 mil funcionários públicos para manter funcionando os hospitais já existentes no modelo das OSS.

Uma dessas OSS funciona na maior favela paulistana, onde vivem 100 mil habitantes. É o Ambulatório Médico de Especialidades (AME) Heliópolis. Criado pelo governo estadual, o ambulatório é gerido pelo Serviço Social da Construção Civil do Estado de São Paulo (Seconci), uma entidade filantrópica sem fins lucrativos. O AME funciona como um hospital dia, não como um pronto-socorro. O atendimento é agendado previamente. Os pacientes são encaminhados pelos postos de saúde ou pelos hospitais. No AME têm acesso a todos os exames (inclusive ressonância magnética) e cirurgias de pequeno porte (como operações de hérnia, catarata e varizes). Encontrar solução para problemas como esses é uma das maiores dificuldades de quem depende do SUS. A faxineira Ana Paula Ladislau dos Santos, de 39 anos, sabe disso. Ela passou cinco anos tentando conseguir uma cirurgia de amígdala para a filha Talita, de 6 anos. Tentou vários hospitais em Mongaguá e na capital. Quando finalmente foi encaminhada ao AME, a cirurgia foi agendada em duas semanas. "Nos hospitais que conheço tratam a gente feito cachorro. Aqui dizem bom-dia. Até a enfermeira veio me consolar quando percebeu que eu saí para chorar porque estava preocupada com a minha filha", diz. O AME é um serviço público que funciona segundo os padrões de exigência do mercado privado. Quem sustenta o SUS com os impostos que paga não está preocupado em saber se os hospitais são administrados pelo Estado ou não. Quer que o dinheiro seja bem gasto, vire serviço de qualidade e produza um bom atendimento de saúde. Como aquele que Ana Paula e sua filha receberam.

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O significado da expressão - vida social - abrange a possibilidade de plena autonomia sobre sua própria vida, integra a capacidade de trabalhar, de constituir família, de manutenção de

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“Constituição Da República Federativa Do Brasil:

TÍTULO II - DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS

CAPÍTULO I - Dos Direitos E Deveres Individuais E Coletivos


Art. 5º - Todos São Iguais Perante A Lei, Sem Distinção De Qualquer Natureza, Garantindo-Se Aos Brasileiros E Aos Estrangeiros Residentes No País A Inviolabilidade Do Direito À Vida, À

Liberdade, À Igualdade, À Segurança E À Propriedade ( ... ).”

Artigo que alinha princípios e direitos em seus incisos, os quais notoriamente dizem respeito ao convívio e à comunicação social. Dos incisos, destaca-se, textualmente:
VIII - "ninguém será privado de direitos";
XIV - "é assegurado a todos o acesso à informação".

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