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Pesquisa da Fiocruz descobre caso de hepatite E aguda no Brasil

Nenhum surto da doença foi registrado, mas é importante que autoridades de saúde conheçam a situação

 

hepatite

 

SÃO PAULO - Para investigar a presença da hepatite E no Brasil, 64 amostras sorológicas de pacientes com hepatite aguda sem etiologia definida (ou seja, com agente causador desconhecido) foram selecionadas pelo Laboratório de Hepatites Virais do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). Esse material, coletado entre 2004 e 2008, foi submetido a testes sorológicos e moleculares no Laboratório de Desenvolvimento Tecnológico em Virologia do IOC.

As análises possibilitaram o diagnóstico laboratorial do vírus E (HEV, na sigla em inglês) em um dos pacientes acometidos pela forma aguda da hepatite. Anticorpos específicos da classe IgG (anti-HEV) para esse vírus já haviam sido encontrados em diferentes grupos populacionais no País, indicando um contato anterior dessas pessoas com o HEV, mas, até então, nenhum caso de hepatite E aguda havia sido registrado.

Segundo o trabalho, descrito no artigo "First report of a human autochtonous hepatitis E virus infection" e publicado no periódico científico Journal of Clinical Virology, a amostra do paciente demonstrou estar relacionada a outra amostra de suíno, caracterizada em outro estudo realizado pelo grupo em colaboração com a Universidade Federal do Mato Grosso e com o pesquisador do Laboratório de Neurovirulência de Biomanguinhos, Renato Sérgio Marchevsky.

A pesquisa foi realizada por meio de uma colaboração entre os laboratórios de Desenvolvimento Tecnológico em Virologia, Hepatites Virais e de Virologia Comparada e Ambiental do IOC.

“Os estudos sobre a hepatite E no Brasil ainda são muito recentes se compararmos com os de doenças causadas por outros vírus”, afirma Débora Regina Lopes dos Santos, uma das autoras do artigo. “O que se observa ao longo da história é que as regiões consideradas não endêmicas, como o Brasil, apresentam evidências sorológicas quando são realizados estudos de prevalência, indicando que uma possível razão dessa alta prevalência para a hepatite E seja a manutenção do vírus em reservatório animal”, declara Débora, que defendeu sua tese de doutorado no curso de pós-graduação em Biologia Parasitária do IOC, em abril.

Segundo Débora, há pesquisas no mundo que detectaram a existência do HEV em animais, principalmente em suínos, mas ela destaca que a transmissão zoonótica por meio de contato direto com animais ou consumo de carne infectada ainda está sob investigação. “Um estudo realizado no Japão comparou a sequência nucleotídica do vírus encontrado em um paciente infectado com o HEV detectado em amostras de fígado de porco consumido pelo paciente. Observou-se que as sequências eram similares”, relata.

Os pesquisadores afirmam que a provável transmissão do vírus para humanos por via zoonótica pode contribuir para a presença dos anticorpos anti-HEV na população brasileira. No entanto, ainda é necessária a caracterização molecular dos vírus encontrados em casos autóctones no País para investigar essa possibilidade.

De acordo com Marcelo Alves Pinto, chefe do Laboratório de Desenvolvimento Tecnológico em Virologia do IOC e coordenador da pesquisa, um dos objetivos do estudo é chamar a atenção das instituições de saúde pública para a possibilidade de haver mais casos não diagnosticados laboratorialmente e, portanto não notificados, permanecendo fora das estatísticas do Ministério da Saúde.

“Se pensarmos em termos de saúde pública, a gravidade dessa doença pode não ser evidente, mas o papel de uma instituição de pesquisa comprometida com o binômio saúde/sociedade é dar um retorno ao público sobre os estudos realizados, assim como fornecer informação e possíveis estratégias para dinamização do diagnóstico no futuro”, destaca Débora.

Ela lembra que casos agudos e fulminantes já foram descritos em países como a Argentina. Um surto de outro genótipo do HEV, não associado à transmissão zoonótica, foi descrito no México e em Cuba, além de países asiáticos. “Apesar de nenhum surto ter sido registrado no Brasil até o momento, é importante que as autoridades de saúde tenham conhecimento”, afirma.

Cozinhar bem a carne antes do consumo e manter boas condições de saneamento básico e higiene são ações importantes para prevenir a doença. Segundo os pesquisadores, o estudo servirá como ponto de partida para pesquisas mais amplas.

Saiba mais sobre a hepatite E

A hepatite é uma doença inflamatória que atinge o fígado e compromete o desempenho de suas funções, podendo evoluir, conforme a gravidade, para cirrose ou câncer. A hepatite pode ter etiologia viral, tóxica ou autoimune e se apresentar de forma aguda (auto-limitada e raramente fulminante) ou evoluir para cronicidade.

As hepatites mais comuns são de origem viral e causadas pelos vírus A, B, C, Delta e E. As hepatites B, C e D podem ser transmitidas, principalmente, por via sexual, vertical (mãe-filho) e parenteral. No caso das hepatites A e E, a principal via de contágio é fecal-oral, por meio da ingestão de água e alimentos contaminados. Nesse conjunto, a hepatite E vem merecendo especial atenção dos pesquisadores.

A hepatite E é causada pelo vírus E (um RNA-vírus). A Organização Mundial da Saúde (OMS) informa, em sua página na internet, que existe a possibilidade de transmissão zoonótica do vírus, considerando que ele circula em granjas de suínos. De acordo com a OMS, o primeiro caso comprovado de epidemia de hepatite E foi relatado na década de 1980.

Segundo o Ministério da Saúde, apesar de as condições sanitárias serem deficientes em muitas regiões do Brasil, não foi descrita nenhuma epidemia causada pelo vírus E no País. Já na África, Ásia, México e, recentemente, em Cuba, surtos foram registrados.

A hepatite E causa quadros graves principalmente em gestantes. O pesquisador do IOC Marcelo Alves Pinto afirma que, geralmente, a doença apresenta um quadro clínico semelhante ao da hepatite A. “De maneira geral, ela difere da hepatite B e da C por apresentar-se nas formas subclínica e aguda. Apesar de deixar o indivíduo incapacitado durante muito tempo, é uma doença auto-limitada”, completa.

 

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