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Sexo no Parque da Cidade

Homens vão a estacionamentos em busca de encontros homossexuais. Campanha de prevenção à AIDS é feita nos locais

 

O relógio marca 18h e a noite fria começa a dar sinais no centro da capital do país. Nos estacionamentos do Parque da Cidade, o movimento é de pessoas indo embora na mesma velocidade que o sol vai se pondo. Em dois deles, no entanto, o trânsito contrário aumenta. À medida que escurece, todos os dias, os estacionamentos que cercam o Pavilhão de Exposições enchem. Dentro de todos os carros, homens sozinhos que repetem o mesmo movimento: abrem a janela e dirigem com velocidade muito baixa em círculos, como se estivessem procurando vagas. No entanto, eles não estacionam. O movimento na verdade é um convite para o sexo casual com outros homens, transformando o parque num Trianon (1)candango.

 

 

O Correio acompanhou duas noites nos estacionamentos. Em cinco horas de observação, a reportagem presenciou mais de 150 carros circulando. Descobriu que o modus operandi dos frequentadores do lugar se repete. Pela janela, eles observam se o motorista do outro carro interessa. Se existe uma afinidade física entre eles, rapidamente, param os veículos. Nesse momento, há uma pequena negociação. Mas não de valores, porque o sexo no parque é de graça na imensa maioria das vezes.

 

 

A negociação é para decidir se a relação ocorrerá no carro ou fora dele. E, se for dentro do veículo, de qual dos dois. Muito raramente, os homens param para pessoas que chegam sem carro. "A gente desconfia de quem chega a pé", admite um frequentador assíduo do lugar. Com 27 anos, ele vai ao parque sempre que dá vontade ou "umas três vezes por semana". Funcionário público, ele dirige um Gol e só dá bola para homens a bordo de veículos caros. "Se o cara chega num carro bacana, não é bandido", acredita. Depois de decididos os detalhes, os dois fazem ali mesmo.

 

 

Árvores

 

 

É muito raro quem sai de lá para um motel ou para a casa de alguém. Muitas vezes, a relação sexual ocorre com os parceiros encostados nas árvores que deixam bastante escuro o lugar. "Não dá nem para ver a cara das pessoas à medida que vai anoitecendo e isso é adrenalina pura", comenta outro rapaz que vai ao lugar todas as sextas-feiras. Morador do Sudoeste, ele gosta do anonimato porque no dia a dia é heterossexual. "CAMISINHA? Uso quase sempre, mas às vezes não dá tempo."

 

 

A utilização do lugar para a "pegação" não é novidade. Mas, pela primeira vez, ela foi mapeada. Durante três meses, a organização não governamental (ONG) Amigos da Vida fez uma pesquisa de campo entre os homens que frequentam o Parque da Cidade para fazer sexo com outros homens. Entre as principais descobertas, está o fato de que 60% deles têm entre 25 e 45 anos e são casados com mulheres. Isso fez com que o governo do DF aprovasse um programa de redução de danos de doenças sexualmente transmissíveis e AIDS para os usuários do Parque.

 

 

"Recebemos verba federal de R$ 1 milhão e a orientação de dividirmos 10% em projetos da sociedade civil", explica Ricardo Azevedo, da gerência de DST/AIDS. A medida faz parte do Plano Distrital de Enfrentamento da Epidemia de AIDS, lançado em 29 de junho, voltado para homens gays, homens que fazem sexo com outros homens e travestis e vai se concentrar na distribuição de PRESERVATIVOS e informativos aos homens do parque.

 

 

Além disso, a ONG descobriu que existe uma regularidade na frequência durante a semana, com um aumento expressivo a partir da sexta-feira. Os horários de pico são sempre os mesmos: Das 18h até as 20h - a happy-hour -, e a partir da meia-noite.

 

 

 

1 - SAMPA

 

O Parque do Trianon, foi inaugurado em abril de 1892 com a abertura da Avenida Paulista na cidade de São Paulo. No início da década de 80, ele começou a ser usado pelo público gay para encontros e paqueras. Hoje, também recebe garotos de programa e travestis.

 

 

 

2 - GÍRIA

 

Entre os homossexuais, o termo "pegação" frequentemente é associado à prática sexual anônima entre gays, com consentimento de ambas as partes, em lugares públicos.

 

 

 

NÃO NO CASTELINHO

 

Há três anos, um dos lugares mais procurados por homens que queriam fazer sexo com outros homens era o Castelinho do Parque da Cidade. Mas a administração do lugar colocou segurança 24 horas por dia para coibir a prática. "As crianças brincavam ali pela manhã e à tarde e se deparavam com camisinhas usadas. Isso não pode ser admitido", observa o administrador do Parque da Cidade, Rivaldo Paiva. No caso do estacionamento, o administrador afirma que não pode fazer nada. "Tem gente que se incomoda. Outros acham que tudo bem, mas eu não posso fazer nada ou sou chamado de preconceituoso."

 

 

 

CAMISINHA? Uso quase sempre, mas às vezes não dá tempo.

 

Rapaz que frequenta o parque todas as sextas-feiras à noite

 

 

 

 

O público

 

 

# Perfil dos frequentadores dos estacionamentos do Parque da Cidade

 

 

# 60% são homens casados que fazem sexo com homens

 

 

# Existe uma regularidade na frequência desses homens durante a semana, com um aumento expressivo a partir da sexta-feira.

 

 

# A população-alvo é constituída de pessoas de classes média e alta

 

 

# A faixa etária dos frequentadores é compreendida entre 20 e 45 anos

 

 

 

 

O perigo de namorar dentro do carro

 

 

A delegada-chefe da 1ª DP (Asa Sul), Martha Vargas, responsável pela Asa Sul, vê mais perigos do que a contaminação pelo vírus da AIDS para os usuários do estacionamento do Parque da Cidade para a "pegação" praticada por homens de classe média. "Namorar dentro do carro ou até mesmo conversar no interior do veículo é altamente perigoso", observa. "A pessoa está distraída e o bandido se aproveita do fator surpresa. Meu primeiro conselho é que vão todos para os motéis."

 

 

Mas para Martha, a frequência no parque é ainda mais perigosa. "O problema lá é maior. É confiar em pessoas estranhas, ninguém sabe quem são os homens que estão lá", observa. "Meu segundo conselho é que: por mais que a escolha sexual mereça discrição, alguém de total confiança precisa ser informado quando a pessoa for sair para namorar. É fundamental dizer para onde vai e com quem."

 

 

No fim do ano passado, um jovem de 23 anos foi morto após deixar entrar no carro um homem no estacionamento do parque. "O motorista que morava na Vila Telebrasília foi rendido e outros dois homens entraram no carro. O rapaz acabou sendo assaltado e morto." A delegada também lembra que fazer sexo ou mostrar o órgão genital em local público é ato obsceno. "Fazer sexo em locais expostos ao público ou ficar nu exposto ao público pode dar cadeia", ressalta.

 

 

 

 

# DUAS PERGUNTAS PARA CHRISTIANO RAMOS, PRESIDENTE DA ONG AMIGOS DA VIDA

 

 

Desde o último dia 29, os frequentadores dos estacionamentos ao lado do Pavilhão de Exposições do Parque da Cidades estão recebendo informativos e PRESERVATIVOS. A prática faz parte do projeto Saúde no Parque, uma iniciativa da organização não-governamental Amigos da Vida, em parceria com a Gerência de DST/AIDS da Secretaria de Estado de Saúde.

 

 

Quem é o público do projeto?

 

São homens que fazem sexo com homens, chamados de HSH e que frequentam o parque à procura de encontros íntimos e aventuras sexuais. Nossa ideia é informá-los sobre a prevenção ao HIV/AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis.

 

 

Por que no parque?

 

Identificamos que muitos homens casados frequentam o lugar e não usam CAMISINHA. Isso amplia um comportamento de risco e ainda pode resultar na infeção das mulheres que os esperam em casa.

CORREIO BRAZILIENSE-DF

Editoria:

Pág.

Dia / Mês/Ano:

CIDADES

 

19/JULHO/09

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Art. 6o – “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”.

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