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Crianças com AIDS - Efeitos até no aprendizado


Crianças | AIDS | ANTIRRETROVIRAIS


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Além de enfrentar todo o severo processo de controle da doença, crianças com o vírus HIV sofrem com o chamado transtorno fonológico, marcado por problemas na fala e na escrita. Dissertação de mestrado apresentada na USP revela como isso ocorre


Rebeca Ramos

Crianças portadoras do vírus HIV constituem um grupo com altas chances para apresentar alterações de leitura e escrita, efeitos do chamado transtorno fonológico. Caracterizado por problemas na fala e levando, posteriormente, a dificuldades de aprendizado, o transtorno foi relacionado, em crianças soropositivas, à gravidade do quadro clínico e do perfil imunovirológico. A dissertação de mestrado em fonoaudiologia de Raphaela Granzotti, na Universidade de São Paulo (USP), contudo, mostrou que os pequenos com a doença sofrem sim com a alteração na linguagem, mas sua ocorrência não tem a ver apenas com as complicações da doença, mas também com fatores neurológicos e ambientais.

 

O Estudo da consciência fonológica e do desempenho escolar em leitura e escrita de crianças soropositivas para o HIV: um acompanhamento longitudinal, apresentado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, teve o objetivo de verificar a relação entre transtorno fonológico e futuras alterações no aprendizado da leitura e da escrita, além de associar essas mudanças com os fatores que determinam a gravidade da AIDS.

 

Segundo Raphaela, existem alguns estudos na literatura internacional que associavam a gravidade da AIDS às alterações cognitivas e neurológicas. "Como o desenvolvimento da linguagem oral e escrita está relacionado a aspectos do desenvolvimento neurológico e cognitivo, fizemos essa suposição", diz.

 

Com o trabalho, entretanto, a especialista comprovou que as crianças infectadas apresentam predisposição para a alteração porque nelas coexistem diversos fatores responsáveis por transtornos na linguagem oral. Um deles é a ação lesiva do vírus no sistema nervoso central em desenvolvimento, que encontra-se mais vulnerável e propenso a complicações. Ela constatou, porém, que fatores socioambientais vivenciados pelos pacientes também influenciam diretamente. "São hospitalizações frequentes, privação de estímulos, estresse familiar, orfandade, impossibilidade de amamentação e condição socioeconômica precária", observa.

 

O estudo avaliou, em 2005 e em 2010, 26 crianças infectadas verticalmente (de mãe para filho), que são acompanhadas na Unidade de Tratamento de Doenças Infectocontagiosas do Hospital das Clínicas da FMRP. Os dados encontrados foram associados por análises estatísticas com a carga viral, a contagem de linfócitos CD4 e o estágio clínico da enfermidade - fatores que determinam a gravidade da doença. De acordo com Raphaela, no teste de 2005 ela avaliou a presença do transtorno e, em 2010, além de refazer a mesma avaliação, foram verificados os níveis de leitura e escrita das crianças.

 

Em 2005, as crianças apresentavam o transtorno, mas, em 2010, mesmo com o quadro clínico e imunovirológico estável, já não sofriam com o problema. "O comprometimento do aprendizado já estava estabelecido, porém, e isso pode ser comprovado pelos resultados das avaliações a que essas crianças se submeteram", diz.

 

Todas as crianças haviam sido tratadas com ANTIRRETROVIRAIS por mais de cinco anos e apresentam sinais e sintomas graves da doença. Raphaela destaca que, pela idade e série escolar (7 a 11 anos, em 2010), era esperado que todas estivessem alfabetizadas, mas 88,5% apresentaram desempenho inadequado na prova escrita e 84,6% na de leitura. Já na avaliação de consciência fonológica, 42% das crianças apresentaram respostas inadequadas, mesmo com os resultados positivos quanto à superação do transtorno fonológico.

 

Para Vicky Tavares, da casa Vida Positiva, que cuida de crianças e adolescentes com HIV, a dificuldade no aprendizado é um problema constante. Ela conta que associava o problema aos remédios pois, até duas horas após ingerir o medicamento, o comportamento das crianças é muito peculiar. "Eles ficam praticamente em estágio letárgico e com pouca concentração. Por isso proíbo visitas nesses momentos", observa. Vick conta que já percebeu, em casos de irmãos - um SOROPOSITIVO e outro não -, que a desenvoltura do sadio é maior em relação à criança com a doença. "Aquela sem o vírus é mais sagaz, mais esperta para aprender."

 

A fonoaudióloga Carla Oliveira destaca que é importante observar como é a fala da criança, se ela é compreendida por qualquer pessoa com quem fala ou se somente pelas pessoas de seu convívio. "É necessário perceber se estão havendo muitas trocas de fonemas; se há muita repetição de um só fonema", aconselha.

 

 

Etapas

 

A fonologia é um dos parâmetros da linguagem que envolve o repertório de sons da língua e está intimamente relacionada ao processamento da informação, envolvendo a percepção, a produção e a organização dos fonemas, integrando-os e associando-os para a formação das palavras. Durante o desenvolvimento da linguagem infantil, a criança realiza simplificações que são superadas naturalmente. "O transtorno fonológico é a dificuldade que a criança apresenta para adquirir e fazer uso dos sons da fala dentro do caráter evolutivo, ou seja, é definido como um fracasso no uso de sons da fala esperados para o estágio do desenvolvimento, próprios da idade e do dialeto do indivíduo", salienta Raphaela. Isso pode envolver erros na produção, no uso, na representação ou na organização dos fonemas, tais como substituições de um som por outro ou omissões de sons.

 

De acordo com Carla, aos 4 anos a criança já deve ter adquirido todos os fonemas da língua, mas não quer dizer que se deve esperar essa idade caso perceba algum atraso nesse processo. Ela conta que, segundo a tabela de aquisição da linguagem, com até 3 meses, as vocalizações são reflexas, a criança reage à fala humana (sorri, olha) e apresenta atenção ao som, procurando-o.

 

De 4 a 8 meses, o bebê já inicia o balbucio (brinca com os sons, como com baba, papa etc.) e usa expressões faciais e movimentos corporais. Entre 8 e 12 meses surgem os comportamentos comunicativos intencionais para atender às suas necessidades, como gestos elementares (apontar), vocalizações mais variadas e direcionadas ao adulto, olhares. "Ela repete sons emitidos por outros e compreende palavras simples", descreve. Só entre 12 e 18 meses é que ela vai passar a usar os gestos que o meio em que está inserido costuma usar, como dar tchau, mandar beijo e indicar sim ou não com a cabeça. "Surgem também esboços de palavras como au-au, mamãe, papai, entre outras", ilustra.

 

Para Carla, o transtorno fonológico pode ser ocasionado em uma criança sadia a partir da falta de estímulo. "A linguagem de uma criança não se desenvolve sozinha, ela precisa sentir a necessidade de se comunicar e descobrir meios para isso. Por isso, precisa de um modelo, no caso, as pessoas do seu convívio."

 

Acesso universal

 

A cúpula sobre AIDS da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, chegou a um acordo para possibilitar tratamento para 15 milhões de soropositivos nos países de recursos medianos e baixos em 2015, alcançando o chamado acesso universal. Os países ricos, fonte principal do financiamento na luta contra a AIDS, aceitaram o compromisso, após discussões de vários dias que terminaram na noite de quarta-feira. A declaração final da cúpula, obtida pela agência de notícias France-Presse e que será adotada na sexta-feira, estabelece o compromisso para "acelerar os esforços para cumprir o objetivo de um acesso universal ao tratamento antirretroviral" e chegar a "15 milhões de pessoas com HIV em 2015".



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