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Sistema prisional é tema de livro

O GLOBO | RIO

AIDS, HIV, Presidiários, Sistema Prisional

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Publicação mostra como foi a gestão de Julita Lemgruber no antigo Desipe

A socióloga Julita Lemgruber estava havia apenas três meses à frente do Departamento do Sistema Penitenciário do Rio (o antigo Desipe), em 1991, quando teve uma crise de choro. Havia um impasse. Mais de dois mil agentes ameaçavam entrar em greve, pondo em risco todo o sistema prisional. Após horas em reunião com sua equipe, nenhum acordo à vista. Sob pressão, Julita se viu diante de uma decisão importante: não ceder e chamar a Polícia Militar que não tinha preparo para controlar os presídios, ou ceder e perder a autoridade em crises futuras. A decisão veio minutos depois. Ela enxugou as lágrimas, retocou a maquiagem e mandou chamar a PM.

Socióloga foi a primeira mulher a comandar o sistema

Esse relato é parte do livro "A dona das chaves ? uma mulher no comando das prisões do Rio de Janeiro", de Julita Lemgruber e Anabela Paiva, lançado na semana passada. O livro conta em 37 capítulos os bastidores do Desipe entre 1991 e 1994, período em que Julita esteve no comando do departamento. Foi a primeira vez que uma mulher ocupou o cargo de diretora-geral do órgão, que tinha mais de nove mil presos. Nesses quatro anos no Desipe, Julita teve que lidar com ameaças de morte, violência, esquemas de fuga, corrupção, tortura, a chegada da AIDS às cadeias e muitos impasses.

"Havia uma dificuldade de se aceitar uma mulher, que não tinha formação em direito, na direção do Desipe"

A socióloga foi nomeada para o comando do Desipe no governo Leonel Brizola, por indicação do então vice-governador e ex-secretário de Justiça, Nilo Batista. Durante a gestão de Julita, o Desipe viveu momentos históricos. Foi nesse período que 14 bicheiros foram condenados pela Justiça. A entrada dos bicheiros no sistema provocou mais problemas, a ponto de um dia Julita ter que barrar a entrada no presídio de uma Kombi com material de construção. Inconformados com as condições das celas, os bicheiros tinham mandado reformar as unidades. Em outro momento, uma decisão de Julita de transferir parte dos bicheiros para Niterói quase lhe custou a liberdade.

"Fui informada de que havia uma intenção da juíza Denise Frossard, que condenou os bicheiros, de pedir a minha prisão porque entendia-se que o Desipe não poderia transferir os detentos. Foi um momento complicado, mas a prisão não ocorreu" conta Julita.

O livro é lançado justamente num momento em que as autoridades discutem como detentos presos em penitenciárias de segurança máxima conseguiram dar ordens para que bandidos levassem terror para as do Rio na semana passada. Para Julita, é preciso discutir medidas para evitar que informações que levem à prática de um crime sejam repassadas das prisões.

 

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