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O resultado da ignorância

 

Marta Reis

Em Khayelitsha, uma das comunidades mais pobres e violentas da África do Sul, não é a falta de água encanada nas casas ou as armas de fogo que mais preocupam seus moradores. Um terço da população adulta é HIV positivo.

 

 

Não é um caso isolado na África do Sul. Em outras periferias, nas províncias de KwaZulu-Natal e Mpumalanga, o quadro também é alarmante e a doença atinge 40% da população adulta. A nação de 49 milhões de habitantes tem a pior epidemia de AIDS do mundo, com 5,7 milhões de casos, de acordo com dados de 2008 das Nações Unidas. A AIDS provoca mais da metade das mortes no país.

 

 

Hoje, a África do Sul parece finalmente estar no caminho certo para controlar a epidemia. Mas isso não significa que a solução esteja próxima. Por causa da desinformação e de uma série de medidas desastrosas dos governos anteriores, o trabalho ainda é longo. "A expectativa de vida na África do Sul é de apenas 47 anos, enquanto no Afeganistão é de 44 anos. E sabemos que o Afeganistão está em guerra. É como se estivéssemos em guerra também", comparou o ministro da Saúde, Aaron Motsoaledi.

 

O ministro atribui ao ex-presidente Thabo Mbeki e à sua ministra da Saúde, Manto Tshabalala-Msimang, a culpa pela baixa expectativa de vida e pelos elevados casos da doença. Segundo Motsoaledi, o quadro seria completamente diferente se o problema tivesse tido outra abordagem na gestão de Mbeki.

 

 

Nos nove anos à frente da África do Sul -- de 1999 a 2008 -, Mbeki levou a maior economia do continente africano a perder a batalha contra a AIDS. Enquanto a maioria dos países investia em pesquisas e campanhas de conscientização, Mbeki ia no sentido contrário. Sua falta de informação sobre o assunto era constrangedora e o ex-presidente causou revolta, dentro e fora das fronteiras, por declarações bisonhas. Em 1999, chegou a negar que o vírus HIV causasse a AIDS, quando há anos a discussão já havia sido encerrada pela comunidade científica.

 

 

"Falar sobre a doença virou um tabu no governo de Mbeki. Não se discutia o assunto, não se investia em prevenção e, enquanto isso, mais e mais pessoas eram infectadas", afirma o coordenador do projeto de combate à AIDS dos Médicos Sem Fronteiras em Khayelitsha, Gilles van Cutsem.

 

 

Mbeki também questionou a eficácia das drogas antirretrovirais no tratamento dos doentes, devido aos efeitos colaterais dos remédios. Ele argumentou que mais testes precisavam ser rea-lizados antes de disponibilizá-las no sistema público de saúde. Apenas em 2001 a África do Sul passou a utilizar os coquetéis no tratamento oferecido por hospitais e clínicas, depois de quase todos os países do continente.

 

 

O ex-presidente ainda nomeou Manto Tshabalala-Msimang para o delicado cargo de ministra da Saúde. Manto ganhou o apelido de doutora beterraba ao sugerir que uma dieta alimentar rica em beterraba, alho e suco de limão seria mais eficaz no tratamento da AIDS do que as drogas antirretrovirais. "Muitos pacientes ficaram confusos com as declarações da ministra e vieram me perguntar se a dieta realmente funcionava. É algo inacreditável. A demora em tomar ações efetivas no tratamento durante o governo Mbeki nos custou 330 mil vidas. Em 1990, apenas 1% dos sul-africanos tinha a doença, atualmente são 12%", analisou Van Cutsem.

 

 

A África do Sul é hoje líder no número de pacientes em tratamento com as drogas antirretrovirais - 700 mil. No entanto, segundo Van Cutsem, a quantidade ainda é insuficiente e outros 1,5 milhão de sul-africanos estão à espera dos medicamentos. O ministro da Saúde, Motsoaledi, prometeu atingir 80% dos pacientes que precisam dos remédios até 2012.

 

 

A epidemia também é agravada porque a África do Sul tem um dos mais elevados índices de violência sexual contra a mulher em todo o mundo - mais de 50 mil casos de estupro são registrados por ano - e também em razão de crenças locais. Em algumas culturas negras sul-africanas, acredita-se que o sexo com virgens auxilia na cura contra a doença e a poligamia é aceita.

 

 

O país é responsável por 17% do total de infectados no mundo, mas o problema ainda não tem a visibilidade nacional que deveria. Nas rádios, tevês e jornais locais não se veem muitas campanhas de conscientização sobre a doença, a distribuição de camisinhas é insuficiente e, em geral, as pessoas evitam falar sobre o assunto. O ministro da Saúde prometeu que o combate à AIDS será a prioridade de sua gestão, mas em poucos meses no cargo já causou polêmica.

 

 

Durante a divulgação das estatísticas anuais sobre a doença, Motsoaledi afirmou que apenas no ano passado 756 mil pessoas morreram por causa da AIDS no país, um aumento de 30% em comparação com 2007. O número foi considerado muito alto por especialistas e pela imprensa, que acusaram o governo de manipular as estatísticas para que o atual presidente, Jacob Zuma, se beneficiasse da redução dos casos quando uma nova pesquisa for divulgada em 2010.

 

 

Zuma, que assumiu a Presidência em maio deste ano, é do mesmo partido político de Mbeki, mas recusa qualquer semelhança com seu antecessor e prometeu eficácia no combate à AIDS. No entanto, ainda há muita desconfiança sobre ele, principalmente pela maneira irresponsável como se referiu à doença no passado. Em 2005, ao se envolver num escândalo de abuso sexual, Zuma alegou que tomou um banho logo após a relação para não contrair a doença.

 

 

Polêmicas à parte, Zuma mostrou-se bem mais engajado do que Thabo Mbeki. O presidente prometeu que, no Dia Mundial da Luta Contra a AIDS, em 1º de dezembro, se submeteria a um exame de HIV, maneira de estimular o resto da população a fazer o mesmo. "Se os discursos do presidente e do ministro forem transformados em ações, estamos no caminho certo. Acho que o principal desafio nos próximos anos é como conseguir sustentar os pacientes em tratamento depois desta crise financeira mundial. Muitas organizações estão cortando doações e o governo vai ter de bancar ou mais gente vai morrer", alerta Van Cutsem.

 

 

 

CARTA CAPITAL

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Dia / Mês/Ano:

SOCIEDADE

 

16/DEZEMBRO/09

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Art. 6o – “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”.

Há Vida com o HIV!
Viver com AIDS é Possível! Saude sim e preconceito não.
Cristiane Rozick. Jurista Brilhante e ativista pelas causas em que se luta pela vida em igualdade de condições para todos


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