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A lipodistrofia atinge homens e mulheres.

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A lipodistrofia atinge homens e mulheres soropositivos e causa perda da auto-estima devido a deformações no corpo. Médicos explicam como combater o problema.

Se os chamados anti-retrovirais devolveram a qualidade de vida a milhares de soropositivos em todo mundo a partir da segunda de da década de 90, o uso das múltiplas combinações de drogas para combater o HIV trouxe consigo um lado negativo. Os coquetéis reduziram consideravelmente o índice de mortes por Aids, mas uma série de deformações anatômicas resultantes dos medicamentos tem provocado grande corrida a consultórios de especialistas em estética. O nome é lipodistrofia, efeito colateral que deixa pernas, braços, nádegas e rosto finos, e abdome, tórax e nuca com concentração excessiva de gordura.

Dr. Márcio Serra, dermatologista e membro da Câmara Técnica de Aids do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj), explica que a lipodistrofia ou síndrome lipodistrófica se caracteriza por uma redistribuição da gordura corporal, com perda da gordura periférica (face, braços e pernas) e acúmulo da gordura central (abdome e pescoço), além de alterações bólicas como aumento de colesterol e triglicérides. Segundo ele, "as medicações anti-retroviarais, o chamado coquetel, aceleram este processo, que normalmente se inicia após 12 ou 18 meses do uso destas medicações".

Por essa razão, as possibilidades de tratamento estético para soropositivos vêm se tornando bastante diversificadas. Os cirurgiões plásticos e dermatologistas são os médicos mais procurados por quem sofre do problema. Acima de tudo, o objetivo desses pacientes é resgatar a vida social. "A primeira coisa que eles declaram quando chegam ao consultório é a perda da auto-estima", conta Dr. Serra. O profissional diz que a dificuldade para tentar novos relacionamentos amorosos é uma das principais reclamações, particularmente entre mulheres. "Elas passam a se esconder e a esconder o corpo. Ir à praia ou colocar uma saia num dia de calor pode ser um problema, o que influencia muito na qualidade de vida destas pessoas".

O tratamento questionado

A também dermatologista Dr. Márcia Yoshioka, do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids e do Departamento de Dermatologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sinaliza que nos casos mais graves, a lipodistrofia pode comprometer a adesão aos coquetéis e, assim, colocar em xeque o futuro da terapia anti-retroviral. "A perda da auto-estima faz com que a pessoa tenha dificuldade para sair de casa e, por isso, queira parar de tomar a medicação, o que é muito arriscado, afinal ela precisa do coquetel".

No caso das mulheres, a disfunção é responsável por masculinizar o corpo. "Quando há atrofia da gordura, elas reclamam muito da perda do quadril e das pernas e dos buracos que ficam nos braços, com as veias proeminentes. Nos casos de acúmulo, o aumento dos seios e o aparecimento de giba são bastante apontados", afirma Dr. Serra.

De acordo com pesquisas, em países desenvolvidos, a lipodistrofia atinge cerca de 30% dos HIV-positivos que tomam os coquetéis. Além disso, 15% têm aumento no sangue de gorduras (triglicérides e colesterol) e de açúcar (diabetes). No Brasil, não existem dados sobre a dimensão do problema. "O Programa Nacional de DST/Aids está fazendo um estudo atualmente em quatro grandes centros e em breve teremos esta resposta", ressalta o membro do Cremerj.

Os anti-retrovirais nucleosídeos causam toxicidade mitocondrial, que leva a diminuição da função e a perda das células de gordura e estão entre os medicamentos que causam os piores efeitos no corpo. "O que mais causa toxicidade mitocondrial é a estavudina", aponta o médico. Preenchimento facial, lipoaspiração, atividade física regular e dieta saudável são as principais recomendações para enfrentar o problema. Em bom português: investir na aparência é, por enquanto, a saída para minimizar os estragos da lipodistrofia em quem já apresenta as alterações.

Corrigindo as alterações corporais

Várias formas de enxertos (permanentes ou temporários) com aplicação de prótese em determinadas partes do corpo, a lipoescultura e a utilização de aminoácidos associados a exercícios físicos para o desenvolvimento de músculos são as técnicas que vêm sendo mais utilizadas para amenizar os efeitos causados pela lipodistrofia. "Para os casos de acúmulo de gordura, a lipoaspiração é uma ótima opção. Nestes casos, aproveita-se esta gordura e se faz lipoenxertia em áreas atróficas como nádegas e coxas. No caso das mamas, faz-se a redução das mamas dos casos mais graves. As próteses de silicone podem ser utilizadas quando há perda de gordura nos seios", explica Dr. Serra.

A perda de gordura no rosto, entretanto, é o maior problema para as pessoas afetadas por este efeito colateral. Isso porque uma roupa bem escolhida pode disfarçar o corpo com abdômen preponderante e membros mais magros, mas a face fica à mostra o tempo todo. "No Brasil, para o tratamento do rosto temos o crilato, que é permanente ao ácido polilático, cuja função é temporária. No resto do mundo, além destes dois procedimentos, temos a poliacrilamida e a poliaquilamida, que também são utilizadas para o preenchimento das nádegas, mas são muito caros", diz o dermatologista, especialistas em implante com crilato (substância formada por micro-partículas de acrílico que são enxertada embaixo da derme), técnica utilizada desde os anos 20 para a correção de rugas.

Outro método frequentemente procurado para preencher as imperfeições do corpo são as injeções de polimetilcrilato, gel que existe há 50 anos. Aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), já é usado como cola óssea e preenchedor de afundamento de crânio, malformação de queixo e atrofia facial por lupus eritematoso. Em pacientes com HIV/Aids, substitui a gordura perdida no rosto, já que funciona como expansor de tecido. "Ele é utilizado nas áreas de atrofia, face, além de nádegas, pernas e braços. São partículas micrométricas de um tamanho suficiente para não serem fagocitadas nem ter peso, e utilizadas por retro-injeções. Em até 15 dias o veículo do material preenchedor é absorvido e se inicia uma reação com formação de colágeno para envolver cada partícula de polimetilcrilato", destaca Dr. Serra. A quantidade injetada varia conforme a gravidade do caso, mas normalmente são necessárias duas sessões. Os médicos garantem que os resultados são satisfatórios e o procedimento, além de não exigir retoques futuros, e é mais barato que outros preenchedores.

A prática de exercícios físicos também figura como alternativa eficiente e acessível aos menos favorecidos, pois desenvolvem os músculos das pernas e dos braços e produz ótimo efeito estético. "Além de ajudar na parte bólica, fazendo baixar triglicerídeos, os exercícios são muito importantes para que não haja acúmulo de gordura nos órgãos, bem como ajudam a definir a silhueta corporal", sugere o dermatologista. Ginástica localizada com pesos para aumentar a massa muscular e exercícios na bicicleta, para melhorar a distribuição de gordura corporal e a condição cardiorrespiratória são boas opções de tratamento. Quem não quiser ou não puder pagar academia pode, ao menos, caminhar um pouco diariamente, dizem os médicos.

Em São Paulo, o projeto Corpo e Mente oferece assistência para a prevenção da lipodistrofia em pessoas soropositivas. O projeto é uma parceria dos grupos GIV (Grupo de Incentivo à Vida) e Lutando pela Vida, e surgiu em 2001 a fim de dar apoio aos que, por falta de dinheiro ou vergonha de mostrar o corpo desfigurado numa academia, acabam não fazendo atividade física, o que só piora a lipodistrofia.

Através da parceria com as Coordenações Municipais de Diadema e São Paulo, o projeto promove aulas práticas de atividade física no Ginásio Poliesportivo Ayrton Senna e no CR Jabaquara (Ceci).(Pamela Cristina Leme)

Fonte: Guia da Semana

 

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