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Abbott rompe com a indústria e processa organização do movimento de AIDS na França

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Editora Responsável

Roseli Tardelli

 

Agência de Notícias da AIDS

Editoria:

Pág.

Dia / Mês/Ano:

 

 

21/JUNHO/07

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21/JUNHO/07

 



20/6/2007 – 17h00

Quebrando o que se tornou um tabu nas relações respeitosas entre a indústria farmacêutica e os ativistas de Aids, os laboratórios Abbott estão processando um grupo francês do movimento de Aids por ter arquitetado um ataque cibernético contra o website da empresa. O agressivo e incomum ato legal surge no topo de outras medidas controvertidas que o Abbott adotou, tais como a quintuplicar o preço de um de seus medicamentos para Aids nos Estados Unidos e descartar os planos de introduzir uma nova formulação de outro remédio, também usado no tratamento da Aids, na Tailândia.

Com o processo, registrado em uma corte criminal francesa no dia 23 de maio, a companhia está violando uma prática não oficial, adotada pela indústria farmacêutica há muito tempo, de ter uma postura conciliatória com as organizações de Aids. Além de enfurecer a comunidade global de Aids, as atitudes do Abbott causaram consternação entre os outros fabricantes de medicamentos, que tiveram suas relações abaladas com os ativistas. “Bem cedo, nós percebemos que era importante trabalhar com os grupos de ativistas,” disse Justine Frain, vice-presidente de parcerias da comunidade global da GlaxoSmithKline PLC, relembrando as dores de cabeça em relações públicas provocadas por ativistas de Aids com suas ações no final dos anos 80, por exemplo, quando eles se acorrentaram aos edifícios da companhia britânica. A atual filosofia da Glaxo é “que os grupos comunitários são parte da solução”, declarou Frain.

O Abbott chamou o seu processo contra o grupo Act Up-Paris de uma “ação de princípios”, justificada pelo fato de que o ataque ao seu website interrompeu algumas de suas atividades comerciais, tais como a venda de produtos nutricionais “online”. O laboratório afirmou que o grupo ativista violou dois artigos do código penal francês que proíbe a invasão de websites e também o fornecimento dos meios para que alguém possa efetuar a invasão.

”Nós respeitamos o direito de protestar e, mesmo que nossas organizações possam discordar em diversas questões, é importante transmitir esses desacordos de uma forma adequada, respeitosa e dentro da lei”, afirmou o porta-voz do Abbot, Scott Stoffel. A empresa não quis dar maiores explicações sobre a sua estratégia de relações públicas de quebrar as regras da indústria.

Se a justiça condenar a Act Up-Paris, a organização será multada em uma quantia entre €75 mil e €100 mil, e deverá ser desativada. A Act Up-Paris é uma ramificação da organização Act-Up, sediada em Nova Iorque, que representa a AIDS Coalition To Unleash Power. A ramificação francesa da organização é conhecida por suas táticas provocativas, tais como destruir os estandes das empresas farmacêuticas em conferências e derramar sangue falso nas sedes dessas empresas. Ela tem despertado críticas de outras organizações de Aids por ser muito radical.

”Nós usamos violência simbólica para chamar a atenção para a violência real” praticada pelas companhias farmacêuticas contra os pacientes”, justificou o integrante da Act Up-Paris, Jerome Martin.

Mas os ativistas do movimento de Aids se uniram a favor da organização e denunciaram o processo do Abbott como uma péssima tática de intimidação. “É a mais recente de uma longa série de ações infelizes do Abbott”, comentou Mark Harrington, diretor executivo do Treatment Action Group, um grupo de advocacy em Aids sediado em Nova Iorque.

O Abbott iniciou esse comportamento mais agressivo em 2003, quando aumentou em 400%, nos Estados Unidos, o preço do medicamento anti-Aids Norvir, utilizado em combinação com pílulas de empresas rivais. A medida era parte de uma estratégia para persuadir pacientes a pararem de utilizar o Norvir e os medicamentos das concorrentes para começarem a usar a nova droga do Abbott, o Kaletra.

Em um artigo de página inteira publicado em janeiro deste ano, The Wall Street Journal revelou que o Abbott considerou adotar ações ainda mais controvertidas nos meses que se seguiram ao aumento de preço. Dentro deste contexto, e-mails e documentos internos mostraram que a empresa aventou a possibilidade de retirar os comprimidos de Norvir do mercado norte-americano e vender somente a formulação líquida que, como um dos executivos do próprio laboratório admitiu, tem gosto de vômito. Para prevenir questionamentos de pacientes de Aids, o Abbott discutiu a utilização de uma reportagem de impacto dizendo que precisava dos comprimidos de Norvir para um esforço humanitário na África. O Abbott ressaltou que essas medidas foram consideradas por executivos que não têm poder de decisão e foram rapidamente descartadas.

Além disso, o Abbott irritou a comunidade de Aids no começo deste ano quanto retirou todas as solicitações pendentes de registro de seus medicamentos na Tailândia, após o país anunciar que decretaria o licenciamento compulsório do Kaletra para importar ou produzir versões genéricas ou mais baratas da droga. Uma dessas solicitações retiradas pelo laboratório era de uma nova formulação do Kaletra resistente ao calor, particularmente mais adequada ao clima tropical da Tailândia. Os ativistas disseram que esta foi uma atitude sem precedentes e a compararam à “opção nuclear”.

O Abbott deu um passo mais conciliatório em abril quando declarou que trabalharia com a Organização Mundial da Saúde para vender o Kaletra a várias nações em desenvolvimento, incluindo a Tailândia, por um preço menor que o dos genéricos. No entanto, recusou-se a voltar atrás em sua decisão de retirar as solicitações de registro de seus novos medicamentos naquele país. A empresa informou que manteve sua posição em relação às solicitações porque o governo tailandês ainda não tinha garantido respeitar a propriedade intelectual, embora as negociações tivessem continuado. Em 26 de abril, o Act Up-Paris respondeu a um apelo de grupos de pacientes para protestar contra as ações do Abbott organizando um ataque ao website da companhia. Clicando em um link postado no website do Act Up-Paris, entre 500 e mil ativistas da França, Canadá, Estados Unidos, Índia e Tailândia sobrecarregaram o servidor do Abbott. Martin disse que o ataque durou um total de quatro horas e desabilitou o site do laboratório por cerca de 30 minutos na véspera da reunião anual de seus acionistas. (Um porta-voz da empresa declarou que o site ficou desabilitado mais do que isso, mas não soube fornecer o tempo específico.) Após enviar uma carta de ameaça ao Act Up-Paris, o Abbott registrou o processo.

Embora algumas ações anteriores do grupo tenham sido criticadas por outros organizações de Aids, ativistas saíram em sua defesa, expressando sua indignação com o fato de uma empresa farmacêutica processar manifestantes. Eles dizem que o ataque contra o website do Abbott foi uma forma legítima de protesto e que a resposta do laboratório foi exagerada.

”Você pode concordar ou não com o ato do Act Up-Paris, mas existe uma coisa chamada liberdade de expressão que diz que você pode ir ao quartel general do Abbott e você pode fazer o mesmo com um website”, comentou Joan Tallada, diretora da GTT, uma organização de Aids sediada em Barcelona.

As táticas agressivas do Abbott causaram espanto na indústria farmacêutica. “Eu falei com executivos da area que consideram a postura do Abbot um desastre em relações públicas para a indústria”, declarou Michael Weinstein, presidente da Aids Healthcare Foundation, uma grande provedora de cuidados médicos para pacientes de Aids.

O integrante da Act Up-Paris, Jerome Martin, informou que o grupo se defenderá contra o processo na justiça, mas pretende também utilizar a cobertura da mídia gerada pelo processo para chamar a atenção para as ações do Abbott. “Nós vamos usar o espaço que eles nos proporcionaram para falar novamente da Tailândia e das terríveis conseqüências que a decisão deles causou por lá,” acrescentou ele. (John Carreyrou and Avery Johnson)

Fonte: The Wall Street Journal

Tradução: Maurício Barreira

 

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