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De grão em grão

 

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17/JUNHO/07

 

De grão em grão 

 

Redução de danos prega ‘uso saudável’ para paciente até dependência das drogas terminar

 

João (o nome é fictício) começou a fumar maconha aos 13 anos. Aos 17, experimentou cocaína. Aos 21, numa madrugada pós-balada, chegou à conclusão de que era um dependente químico e queria mudar de vida. Acordou os pais, contou tudo e pediu ajuda.

 

O jovem teve a sorte de contar com o apoio da família. No dia seguinte, um sábado, o pai conversou com um amigo, pediu orientação e descobriu o Caps AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), órgão ligado à Secretaria Municipal de Saúde. Na segunda-feira, João já começava o tratamento.

 

Ao invés de repressão e de portas fechadas, encontrou ajuda profissional e bastante compreensão. Foi incluído na chamada redução de danos, política pública de tratamento a usuários de drogas lícitas e ilícitas ainda pouco divulgada.

 

No caso de João, que associava maconha, cocaína e álcool, a orientação inicial foi reduzir o uso de drogas para começar a conhecer de verdade a si mesmo e se sentir melhor.

 

Os profissionais do Caps AD também pediram para ele tentar ficar mais em casa, conversar com os familiares, procurar alguma atividade que lhe desse prazer.

 

Setenta dias após a procura de ajuda, o jovem não usa mais cocaína e álcool. Bebe cerveja, mas garante ter controle. Gosta mais de conviver com a família e faz planos de retomar os estudos.

 

“A gente não trabalha a abstinência total como regra, mas como objetivo”, explica a psicóloga do Caps AD, Eliana Martini dos Santos. Utilizando a redução de danos, o usuário caminha até tomar a decisão de parar de consumir drogas. “Não incentivamos o uso, mas damos oportunidade e tempo para que o objetivo seja atingido.”

 

Os usuários de crack, droga considerada das mais pesadas e muito comum em Bauru, por exemplo, podem ser orientados, no início do tratamento, a trocar as pedras pela maconha – droga considerada mais leve e que tira a “fissura”.

 

Também como parte da redução de danos, os usuários são orientados sobre os perigos de compartilhar seringas, cachimbo e canudinhos para aspirar cocaína. Em Bauru, não existe a distribuição de seringas e outros insumos relacionados às drogas.

 

“A estratégia é oferecer o tratamento”, diz Eliana.

 

Panfletos foram criticados

A inclusão de orientações que fazem parte da política de redução de danos em panfletos confeccionados para a Parada do Orgulho GLBT, realizada na última semana, provocou muita polêmica em São Paulo.

 

Quarenta mil panfletos estampavam orientações sobre o uso de cocaína. “Para cheirar, prefira um canudo individual a notas de dinheiro”, ensinava o material distribuído entre o público.

 

O consumo de maconha também mereceu “atenção especial” dos panfletos. “Faça uma piteira de papel só para você quando for rolar um baseado”, estampava.

 

Isso foi realizado dentro da política da redução de danos: o uso individual de canudos para aspirar cocaína e piteira para fumar maconha evita a transmissão de bactérias e até de doenças, como a hepatite – mesmo assim, a ação não escapou das críticas.

 

O Programa Nacional de DST e Aids, do Ministério da Saúde, e a Coordenação Estadual de DST e Aids de São Paulo, do governo estadual, defenderam a política de redução de danos diante da polêmica.

 

Bauru é uma das pioneiras na estratégia

A política de redução de danos começou a ser aplicada na cidade em 1998, numa parceria com o programa DST/Aids. “Bauru foi pioneira na área da saúde mental a fazer a redução de danos”, conta a psicóloga Eliana Martini dos Santos.

 

Ela defende que a estratégia de reduzir danos facilita o acesso ao usuário, que recebe preservativos e também orientação. “A gente oferece saúde”, diz.

 

No Caps AD, a redução de danos é apenas um “braço” do tratamento contra a dependência química. Os usuários que procuram o órgão também tem acesso a tratamento clínico, psiquiátrico e psicológico.

 

O Caps possui dois leitos para pacientes adultos e encaminha os casos mais graves para hospitais. Os usuários chegam espontaneamente ou por meio de encaminhamento feito por outras unidades de saúde.

 

O órgão atende adultos, adolescentes e até crianças.

 

A redução de danos também é praticada no Centro de Referência, que atende pacientes contaminados pelo vírus HIV.

 

Os pacientes são orientados a reduzir o uso de drogas para que os medicamentos fornecidos tenham um resultado mais eficaz.

 

“Redução de danos não é só não compartilhar seringas”, lembra a assistente social Sílvia Forti, chefe do Centro de Referência.

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CAPÍTULO I - Dos Direitos E Deveres Individuais E Coletivos


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