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Aids migra para o interior do Estado

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Folha de Pernambuco – PE

Editoria:

Pág.

Dia / Mês/Ano:

Grande Recife

 

10/AGOSTO/08

Aids migra para o interior do Estado

 

Sílvia Leitão

No mundo todo, de acordo com o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV e AIDS (UnAids), são 33 milhões de pessoas vivendo com o vírus da doença. Na América Latina, o Brasil está em segundo lugar em números de pessoas infectadas, ficando atrás apenas do México, com 474.273 ocorrências. A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) está presente em Pernambuco desde o início dos anos 80. Segundo especialistas, na última década, dois movimentos vêm desenhando uma radiografia diferente da doença: a feminização e a interiorização. A antiga proporção de 20 casos diagnosticados em homens para apenas um em mulheres, já está quase que em pé de igualdade e, apenas no Recife, por exemplo, 30% dos pacientes soropositivos atendidos pelo Hospital Universitário Osvaldo Cruz (HUOC) e Hospital das Clínicas (HC) vêm do interior do Estado.

De 2000 até 2005 surgiram, no Brasil, cerca de 34.500 novos casos da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) a cada ano. Os números do Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST/AIDS) apontam que, enquanto nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste há uma tendência à estabilização da síndrome, no Norte e no Nordeste o mal vem se alastrando. Em 1995, 43,7% dos municípios do Brasil tinham, pelo menos, um caso da doença registrado. Hoje, 85% das cidades brasileiras têm, no mínimo, um registro de soropositivos. Em Pernambuco, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) notificou, de 1983 a 1990, pelo menos um caso em 50 municípios; até 1997, a estatística subiu para 127 cidades e, com base no último levantamento, entre 1983 e 2007, pelo menos um caso foi notificado em 169 localidades do Estado.

Segundo o coordenador do Programa DST/AIDS, em Pernambuco, François Figueirôa, o Estado está em segundo lugar no Nordeste em número de registros - já são 13.500. "A concentração das notificações estaduais ainda se encontra na Região Metropolitana do Recife (RMR), pois é onde está a maior parte da população. O problema é que, a cada ano, mais cidades do Interior apresentam novos casos. É um processo que vem ocorrendo desde o início da epidemia pernambucana, em 1983, quando registramos a primeira ocorrência. O Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), causador da doença, não tem nenhum tipo de fronteira", constatou.

A falta de limites territoriais é percebida nos três centros de assistência ao portador do vírus da AIDS no interior de Pernambuco - Caruaru, Salgueiro e Petrolina. Só este ano, o Serviço Ambulatorial Especializado (SAE) caruaruense registrou 78 novos casos, sendo 31 da cidade e 47 dos 32 municípios atendidos pela unidade. Em Salgueiro, desde o início do serviço, em 2004, somam-se 43 casos, sendo 28 daquela cidade e o restante das outras 11 localidades assistidas; em 2008, já foram cinco novas notificações. No SAE de Petrolina, de janeiro a junho deste ano, foram atendidos 30 portadores de HIV e, desde o primeiro caso diagnosticado na cidade, em 1988, a unidade registrou 325 pessoas com o vírus. "Desse total, são 218 de registros ativos, desconsiderando óbitos e transferências. Mas, de fato, nosso número seria maior se muitos não tivessem interrompido o tratamento", conta o coordenador do programa municipal de DST/AIDS, Francisco Freitas.

A médica psiquiatra, pós-doutora em Medicina Preventiva, docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade de Franca (Unifran), Wilza Villela, indica que é da dinâmica da epidemia da AIDS ir se interiorizando. "No mundo todo isso vem acontecendo. Já era um problema nos Estados Unidos e na Europa quando chegou aqui no Brasil. Também já percorria o território brasileiro quando atingiu demais países da América Latina". Ela explica que à exceção do continente africano e Haiti, na América Central, a síndrome sai do centro para a periferia. "Das classes sociais altas para as médias e daí para as baixas, das regiões mais urbanizadas para o interior", completa.

 

 

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Para evitar estigma, muitos vêm à Capital

Na comunidade de Sítio Lajes, na zona rural de Caruaru, onde Juraci da Silva mora, há mais cinco soropositivos além dela, mas eles não freqüentam o serviço especializado da cidade, como a aposentada. A professora Ana (nome fictício para preservar sua imagem onde trabalha), de 40 anos, que mora no José Antônio Liberato, bairro também caruaruense, conhece pelo menos outras dez pessoas portadoras do HIV que saem do Agreste até o Recife em busca do tratamento. Infectologista do Hospital Universitário Osvaldo Cruz (HUOC), da Universidade de Pernambuco (UPE), no Recife, Vicente Vaz constata esse fluxo de pacientes do interior de Pernambuco no dia-a-dia de seu setor. Ele estima que 30% dos atendimentos em HIV/AIDS venham de municípios interioranos. "Atendo muitos de Garanhuns e de Caruaru e até de outros estados. Normalmente, eles não querem ser apontados como soropositivos em suas cidades e preferem ser atendidos em um lugar neutro", afirmou.

A rotina do Hospital das Clínicas (HC), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), de 2001 a 2008, apresentou o mesmo percentual (30%) de atendimento de pacientes do Interior, somando-se a 30% da RMR e 40% da Capital. "Creio que eles têm menos informações e oportunidade de acesso aos serviços de saúde. Os casos são comumente relacionados às relações livres, sem uso de proteção", denuncia a infectologista Cláudia Vidal. Para a professora Ana, contaminada há oito anos pelo então marido, que era ex-usuário de droga injetável e ela não sabia, a alternativa para o tratamento da AIDS no primeiro ano da doença foi o Recife. "Eu me isolei, porque, de cara, toda a família do meu pai me desprezou", revelou.

 

 

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